Domingo, 12 de Julho de 2009

A minha namorada até fala estrangeiro

Canção de Amor e de Saúde, de João Nicolau












É preciso ir dar uma ‘ganda’ volta para chegar a este título, a propósito do filme que acaba de ganhar a competição nacional da 17ª edição do festival Curtas Vila do Conde.

Mas chega-se lá por associação de ideias. Parte da nova curta de João Nicolau passa-se num centro comercial decrépito do Porto, o Brasília, que já teve os seus momentos áureos e até figurou em Rapariguinha do Shopping, a canção de Tê e Rui Veloso. A mesma dupla é autora de outra canção cujo o refrão dizia «a minha namorada até fala estrangeiro e oh que felicidade ir buscá-la à faculdade». É o caso do protagonista desta curta: um serralheiro, que é o novo rapazinho do shopping, que não usa baton, nem os sovacos perfumados nem desce as escadas rolantes ao som disco dos Beegees. Nem tem glamour algum. Mas há-de arranjar uma «namorada que até fala estrangeiro». Neste caso francês, por razões alheias à vontade do realizador, mas já lá vamos.

Na cena de abertura do filme, há um longo bocejo da personagem, que se ergue da cama, e nos fita de olhar impávido, muito à João César Monteiro. Aliás, a personagem interpretada pelo músico, virtuoso da guitarra, Norberto Lobo, tem aquele ar vago e negligente, também muito à João César Monteiro. Mas não é só isto que faz lembrar o genial cineasta português, de quem João Nicolau chegou a ser assistente de realização. Também o tom, os diálogos naives mas com frases rocambolescas entremeadas, e a própria parvoíce... Mas também já lá vamos.

João Nicolau bisou Vila do Conde. Há três anos com Rapace (que venceu a própria competição internacional) e agora com esta Canção de Amor e de Saúde. O estilo é reconhecível. Os ambientes, a utilização da música, a estranheza, o non-sense, um certo tipo de humor... E esse é o maior problema do filme. Ser demasiado reconhecível dá-nos alguma sensação de dejá vu. Canção de Amor e de Saúde já não surpreende. Além disso, tem alguns problemas de ritmo. O que não significa que não seja um prémio mais do que merecido.

Logo depois da cena do bocejo, o realizador exibe o virtuosismo de um plano sequência de mais de três minutos. A câmara fixa-se no leão da rotunda da Boa Vista, abre para a rua, passam dois camiões, que num ardil bem engendrado formam o genérico, descobre-se a personagem principal que entra no shopping, desce as famosas escadas rolantes que também compareciam na canção de Veloso, dirige-se pelas catacumbas deste centro comercial fantasma, abre o seu «estabelecimento» de fazer chaves, aparece a colega do snack-bar e corta.

Toda a primeira parte do filme (talvez a mais interessante) passa-se nestas criptas de um comércio que há muito perdeu o viço. Para os portugueses estes «não lugares» são perfeitamente reconhecíveis. Nos anos 80 assistiu-se à fúria dos shoppings e centros comerciais. Em tudo quanto era bairro aparecia um. Mas a lógica capitalista é assim, os peixes grandes comem os pequenos, e não houve centro comercial-sardinha que sobrevivesse à voragem dos tubarões das multinacionais, dos hipermercados e dos Colombos. João Nicolau resgatou para cenário do seu filme estes ex-centros comerciais agonizantes, em que as lojas estão fechadas ou prestes a fechar e pelos corredores lúgubres não passa vivalma. Se em Rapace, nos mostrava uma certa Lisboa dos anos 90, em que as ruas de Telheiras tinham um banco porta sim porta sim, agora mostra-nos outra face da pós-euforia.

Com planos sequência, jump cuts, travellings para trás e para a frente, muitos interlúdios musicais (a grande mais-valia do filme), e muitas ambiências à velhinha nouvelle Vague, o realizador vai acompanhando este sonolento rapazinho do shopping, que passa os dias entre a indolência do tédio e a auscultação de dois oráculos, um uma maquineta electrónica do Teste do Amor e outro um pai que se esconde noutra dimensão, numa cave, algures atrás de uma porta. Aparecem umas meninas também muito nouvelle-vaguianas, até que há uma que lhe encomenda uma chave antiga, daquelas de abrir masmorras ou cofres encantados. A menina «cursa» Belas-Artes e fala francês por mera contingência de produção. A 15 dias da rodagem, o Canal + informou que só iria entrar com a sua parte do financiamento se 50% do filme fosse falado em francês. O realizador teve de adaptar o guião e pôr o elenco a franco-fonizar rapidamente. O que só prova que nem o cinema independente está tão independente quanto isso...

Entretanto, a chave da menina artista vai abrir outras portas ao protagonista, inclusive a do seu coração. E do porão do centro comercial passa-se para os jardins de Serralves, onde o protagonista apanha um banho de ar puro e de erudição. Apesar do apuramento estilístico, é aqui que o filme perde o ritmo, e se torna repisado, com diálogos assumidamente tontos, que só são despretensiosos na aparência: «Do que eu mais gosto é do teu sotaque italiano»; «Mas eu não tenho sotaque italiano»; «Pois não...»

Sábado, 11 de Julho de 2009

Vozes fora nada

À Escuta dos Silêncios, de Pedro Flores
Um silêncio côncavo. É uma espécie de silêncio assim que habita o filme de Pedro Flores, onze minutos de puro bom gosto, cheios de poesia, num dos dois únicos documentários presentes na competição nacional do Curtas Vila do Conde. É um silêncio côncavo, como o das igrejas, que repercute e amplifica os sons e os passos. Ou como a mente humana, onde também há, por vezes, um silêncio côncavo, com vozes que ficam a ressoar por ali... Costuma chamar-se-lhe esquizofrenia. Roy Vicent há trinta anos que ouve vozes e mora no meio de um campo inglês, cheio de ventos e arrepios. Mas ele diz que «o local mais isolado do planeta é a mente humana».

É um documentário desolado e nostálgico, como a paisagem. Mas construído com um rigor e uma delicadeza notáveis. Para já na forma como nos apresenta esta extraordinária personagem – um velho inglês de dicção perfeita, que tem esta particularidade ter vozes na cabeça. A câmara vai ao seu encontro, através do jardim, através das escadas, através da sua velha casa, também ela cheia de rugas, teias e outras injúrias do tempo. E também na forma como joga com o tema, colocando em planos idênticos, mas nunca coincidentes, a imagem e o som. É sempre a imagem de Roy que vemos, a passear na paisagem, a aproximar-se dos cavalos, a talhar madeira, a queimar papéis, a sentar-se na relva, a passar entre sepulturas, a esperar de olhar perdido numa sala escaqueirada onde está um órgão que se adivinha há muito silenciado ... Também é sempre a sua voz que ouvimos, sempre sempre em off. Na verdade Roy não fala, mas nós ouvimos-lhe a voz. Tal como ele ouve as aquelas vozes intrusas que lhe sopram na cabeça. Que, diz ele, tanto podem imitar o sotaque do inspector Clouseau ou de familiares mortos. Mas que lhe preenchem «o vácuo que sente entre as orelhas».

A fotografia é excelente, e o expediente com que o realizador gere e integra os silêncios, as falas dele e a paisagem é muitíssimo inteligente. A voz de Roy vai-nos conduzindo até ao final, que acaba da melhor forma . Com aquela voz grave a entoar uma canção. «Dont’ worry Roy you will be met».

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Façam as vossas apostas!


Qual a melhor curta do Curtas?

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O Festival aproxima-se do fim, e todos se perguntam: quem irá vencer a competição nacional? Trata-se do mais importante prémio do Curtas, mesmo a nível monetário. Canção de Amor e Saudade, de João Nicolau, confirmou em sala o seu estatuto de favorito. O filme (passou em Cannes) e o realizador (multipremiado) justificam a expectativa. Se houvesse por aqui uma grelha de apostas, o segundo mais cotado seria Um Dia Frio, de Cláudia Varejão. A jovem realizadora conseguiu um filme quase perfeito que, num multi-plot, conta a história de uma família. Há quem aponte a comédia Tony, o primeiro filme de Bruno Lourenço, centrado num imitador de Tony de Matos como candidato de peso, ou mesmo O Destino do Sr. Sousa, de João Constâncio, que conta com um elenco de luxo. Se o júri decidir dar o prémio a um documentário, o que não seria inédito (aconteceu com Documento Boxe, de Miguel Clara Vasconcelos) tem duas boas alternativas, em registos praticamente opostos: Margarida Leitão, em mais um retrato social, com Matar o Tempo; e Paulo Flores, com À Escuta dos Silêncios, todo narrado em voz off, sobre um homem que ouve vozes. Só amanhã, sábado, se saberá da deliberação do júri. Entretanto, façam as vossas apostas.

Destino marcado


Em O Destino do Sr. Sousa, Luís Miguel Cintra contracena com Rita Blanco. Um luxo numa curta de um jovem realizador que, nos tempos livres, é professor de filosofia (ou será ao contrário?) O Final Cut entrevistou João Constâncio.

FINAL CUT: O Destino do Sr. Sousa tem um elenco de luxo. Como conseguiste convencer toda esta gente?

JOÃO CONSTÂNCIO: Charme… (risos) Gostaram do guião. Já tinha trabalhado com a Rita Loureiro e a Sofia Marques. O Luís Miguel e a Rita Blanco entusiasmaram-se apesar do orçamento não ser muito elevado.

Como é que um jovem realizador dirige Luís Miguel Cintra?

Senti essa instabilidade antes de começarmos a trabalhar. Mas durante a rodagem liberto-me dessas coisas e não fico a pensar se aquele é o Luís Miguel Cintra ou outro actor. Trabalhar com ele foi a coisa mais fácil do mundo. Ele é de uma generosidade incrível. Estava disposto a fazer tudo o que lhe pedia. Usámos um método de trabalho especial. Em vez de ensaiar muitas vezes a cena, discutimos a fundo a personagem, fizemos um grande trabalho de análise, para que ele entendesse bem a personagem. A partir daí só tive que fazer um ou outro ajuste durante a rodagem. Correu muito bem. Ele é um grande actor.

O filme está cheio de ironia. Há um padre que, às portas da morte, se arrepende de não ter pecado. E há uma expectativa da morte dessa personagem, mas quem adoece e padece de forma subtil é a mulher, interpretada por Rita Blanco. Tudo isto existia no conto de Simenon?

O conto é muito pequeno. Uma diferença significativa é que, na história do Simenon, a personagem não é um padre, mas sim um alfarrabista celibatário. Pareceu-me que a personagem não faria muito sentido hoje. A ideia base é de alguém que chegou à conclusão de que a sua vida no seu todo, até a o momento em que a encontramos, foi vazia de sentido. Então, há uma reacção da personagem.

Porque apresentaste duas versões do filme?

Por uma razão prática. O filme tinha 35 minutos e a maioria dos festivais não aceitam filme com mais de meia hora. Então cortámos um pouco do filme e resolvemos testar a nova versão em Vila do Conde. Para ser sincero, prefiro a versão mais longa.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

JP, o anti-herói

El Justiciero, de Tiago Sousa

Este ano houve dois músicos que descobriram a vocação de actor, no Curtas de Vila do Conde. Ambos em interpretações soberbas. Norberto Lobo, em Canção de Amor e Saúde; e JP Simões, em El Justiciero, de Tiago Sousa. A personagem de Rui parece desenhada a papel miilimétrico para JP. O actor/músico tem longas deixas magníficas, de um humor fino e comovente, num filme que roça o piegas. Uma história de amor e dasamor, de partida, de uma relação de pai e filho, mas também de um eterno retorno à infância. Um divórcio mal divorciado, na constante eminência da recociliação. E uma criança perdida sem perceber se o pai é um super-herói ou um anti-herói. Pena é que as cenas com a criança não tenham recebido tratamento mais eficaz. De resto, El Justiciero é um filme com princípio meio e fim, sustentado ao ritmo de um músico/actor com uma pedalada muito especial. JP actua com a mesma cadência com que entoa as suas canções.

Oui c'est bon

Canção de Amor e Saúde, de João Nicolau


Se há cabeça-de-cartaz na Competição Nacional do Curtas deste ano, é, sem dúvida, Canção de Amor e Saúde, de João Nicolau. É o grande favorito ao prémio do certame. Mas aqui como noutros sítios não há vencedores antecipados. A atenção sobre a última obra de João Nicolau é plenamente justificada. E o realizador merece o destaque. Lembre-se que Rapace, a sua obra anterior, teve uma notável carreira internacional e foi o primeiro filme português a receber o prémio internacional em Vila do Conde. Canção de Amor e Saúde é uma co-produção luso-francesa que esteve presente em Cannes, na quinzena dos realizadores.

É uma reincidência num estilo reconhecível no realizador, próximo de João César Monteiro. Protagonizado pela virtuoso guitarrista Norberto Lobo (não toca guitarra no filme) é uma história mágica, sedutora e nostálgica. Foi rodada no Shopping Brasília e no Parque de Serralves no Porto. E entre uma comicidade non-sense e um lirismo à Fellini inebriante, João Nicolau consegue, novamente, focar uma geração perdida de forma totalmente despretensiosa. Mais notável ainda se pensarmos que o filme foi feito com um constrangimento de última hora: a uma quinzena da rodagem, o Canal Plus explicou que os seus regulamentos exigiam que todos os filmes por si apoiados fossem falados em francês numa proporção mínima de 50 por cento. Fica a curiosidade em saber: como seria o filme sem esse contratempo? Será um mal que veio por bem ou um mal menor?

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Os Homens da Luta

Matar o tempo, de Margarida Leitão



Num estilo preciso e cinzelado, a realizadora fez este documentário brilhante que acompanha as horas mortas de um piquete de luta laboral. Acampado à porta da fábrica Pereira da Costa, um grupo de operários armou uma barraca – e quando se diz armar uma barraca prescinde-se por completo da conotação espaventosa da expressão. Margarida Leitão tem a estratégia da aproximação distanciada para chegar a estes operários, e aos bastidores da sua luta. Como vivem naquelas instalações precárias, como esperam, como comem, como dormem, nesta espécie de tenda improvisada, enquanto decorre o processo de resistência passiva e de exigência dos seus salários em dívida. Outrora mataram-se a trabalhar, agora matam o tempo à espera que o patrão lhes pague o que deve. Não arredam pé, naquela barraca feita de estacas e lonas. «Saber esperar é uma virtude», diz um deles. O filme começa com uma palete a ser destruída, daí a nada há-de ser lenha para um churrasco instalado num meio bidon. Há mais de um ano que estão ali naquele acampamento forçado. Assam bifanas, temperam a salada, marcam as escalas, jogam dominó, conversam… A câmara já conquistou aquele ponto da invisibilidade da habituação, e a certa altura capta um velhinho vestido de fato de macaco que folheia as folhas de uma Hola (ou de algum sucedâneo). Sofre de astigmatismo, aproxima as lentes garrafais de um fotografia de George Clooney. De repente, os antípodas do mundo reúnem-se num ponto só, como o Aleph de Borges: ali temos o glamour plástico de Hollywood gravado nas lentes dos óculos do que resta do proletariado europeu. É um das cenas antológicas do filme.

Sem recurso a voz off, sem a bengala dos testemunhos para a câmara, a realizadora segue este processo revolucionário em curso, quando o colectivismo ainda faz sentido e ainda funciona. Estes homens já resistiram ao «terrorismo laboral» do empresário, não é qualquer vendaval reaccionário que os vai fazer debandar. «A barraca tem de se manter até ao fim da luta. Cheia de remendos mas tem de ser manter». E a gente a pensar porque não se remenda, já agora, a bandeira de um país, descoloriada e em fiapos. Sem retóricas rebartivas, sem mensagens panfletárias, o filme devolve a dignidade que fora negada a estes homens.

O homem da gabardine

Bruno, de Sacha Baron Cohen




Diz-se que ele está muito à frente. Que tem uma atitude punk. Que é subversivamente provocador. Mas afinal ele é tão provocador como aqueles homens que exibem a sua nudez debaixo da gabardina, perante as mulheres que passam. Sacha Baron Cohen provoca as mesmas reacções que o homem da gabardine. Ou seja susto, sobressalto e repugnância.

Depois de Borat, Sacha encarna o homossexual Bruno que faz tudo para ser famoso. Mas mesmo tudo. Quando pensamos que ele já foi longe demais, ele avança mais um bocado. E é esta um bocado a estratégia dele, uma estratégia de progressão geométrica – quando já achávamos que vimos tudo, ele ainda tira vários coelhos da cartola. Só que são coelhos mutantes, façanhudos, obesos e grotescos.

Se é verdade que Sacha tem estas propriedades camaleónicas de se metamorfosear de um filme para outro, também é verdade que o seu trabalho de actor não passa de uma caricatura, para a qual convoca todos os tiques e todo o merchandising gay. Com a subtileza, imagine-se de um elefante em loja de porcelanas. Com objecto cinematográfico, é um não objecto, mas uma sequência de sketches misturadas com «apanhados», mais ou menos alinhavados, e alguns têm até graça.

Existem filmes que demonstram o que é o tédio, sendo entediantes. Este demonstra o que é o mau gosto, sendo de mau gosto.

Está bem, é politicamente incorrecto – que é um conceito cujo o inverso negativou. Ser politicamente correcto, essa invenção americana tornou-se odiosa. O que não quer dizer que a sua inversão seja automaticamente boa. Porque há outro conceito que ainda não foi revogado pelos desdramatizadores do mau gosto: o grosseiramente incorrecto. Mas tão inofensivo, claro, como o exibicionista da gabardine.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Ideias fortes no tempo certo

No ano em que finalmente Portugal esteve no pódio (Palma de Ouro para Arena de João Salaviza) é tempo de olhar para a maior montra das produções que de menores só têm o nome, durante Curtas Vilas do Conde, o mais mutante e eclético dos festivais, a decorrer até dia 12. Nuno Rodrigues, um dos seus quatro directores, conta como o «Curtas» mantém, na sua 17ª edição, uma vocação não dogmática, sempre a quebrar a fina barreira entre o cinema e as artes plásticas, o vídeo-clips ou a música.

VISÃO/ FINAL CUT - Até que ponto a Palma de Ouro de Cannes pode ser também entendida como um reflexo do trabalho desenvolvido em torno da curta-metragem, muito concretamente no Curtas Vila do Conde?

NUNO RODRIGUES - Não tem de haver ligação directa, mas neste caso até há uma ligação com Vila do Conde porque o João Salaviza recebeu, há quatro anos, o primeiro prémio no festival, na secção Take One, que é um espaço de descoberta de novos autores, através dos trabalhos das escolas. O festival contribuiu para dar visibilidade às curtas. É preciso ver que, quando começámos, não havia produção nacional. O Curtas Vila do Conde é o palco das curtas portuguesas para o mundo. Estão presentes directores dos festivais mais importantes do mundo, como de Roterdão, Berlin ou Cannes...

Sentem-se de alguma forma penalizados pelo aparecimento de dois festivais em Lisboa, como o Indie e o Doc, que cada vez mais prestam uma atenção especial às curtas?
Não, é um fenómeno que acontece também noutros países, o facto de os festivais generalistas começarem a estar muito interessados nas curtas. Isso é bom porque contribui para o peso e importância do formato. O único aspecto menos benéfico pode ter mais a ver com empresas e patrocínios, porque o interesse do público mantém-se em níveis sempre crescentes.

Agora que têm o dobro da lotação (600 lugares), no reaberto Teatro Municipal sentem a pressão de «encher a sala»?
Nunca tivemos a histeria dos números, nem fizemos qualquer cedência programática tendo em vista atrair o público. O segredo de Vila do Conde é estar sempre a renovar-se, é estar sempre a cruzar-se com novas linguagens e outras artes. Aqui poderemos ver obras tão diferentes que se tornam corpos estranhos, impossíveis de definir.

A Cada Um o Seu Direito

Stories on Human Rights, Vários Realizadores






José Saramago haveria de gostar de ver este filme. Ele que há anos faz bandeira da Declaração Universal dos Direitos dos Homens, haveria mesmo de gostar de ver traduzidos os 30 artigos da sexagenária declaração através de imagens em movimento, som, cor e sentido. O Alto Comissariado para as Nações Unidas para os Direitos Humanos encomendou curtas a realizadores de todo o mundo, para comemorar os 60 anos da declaração. Os parâmetros temáticos da encomenda eram os mesmos definidos pela declaração: Desenvolvimento, Cultura, Dignidade e Justiça, Participação, não descriminação pelo Género e Meio Ambiente. Enfim, tudo aquilo a que temos direito.

Não mais – nem menos.

O resultado foi este mosaico maravilhoso de 22 curtas-metragens, que funcionam como um todo, à semelhança do recente A Cada Um o Seu Cinema, o filme-composto, que nasceu também a convite do festival de Cannes. Nesse tínhamos Oliveira, com a sua enigmática blague, que envolvia o papa e o Krutchov. Neste não há representação nacional. É o único senão.

Usando a técnica infalível daquilo que permanece retido na memória, das cenas e dos filmes que ficam presos nas malhas mais finas da rede, e se mantêm aí a retinir ecos e campainhas, pescamos em primeiro lugar uma curta em toda a sua dimensão – que vai muito além do pequeno formato, mas é a essência da sua definição: «ideia forte no tempo certo». Um grupo de meninos brinca à porta de uma vivenda. Na verdade só percebemos que é brincadeira uns momentos depois. Eles brincam aos tiros, aos polícias e aos ladrões, como todos os miúdos do mundo – apesar de estes não precisarem de arranjar guiões para as brincadeiras fora da realidade onde vivem: Palestina. A imagem dos miúdos que brinca é captada pelas câmaras de vídeo-vigilância. É a estratégia mais inventiva do mundo para crianças que não tem câmaras conseguirem fabricar um filme.
Depois há uma impressionante corrida ao lixo, como outrora se corria ao ouro, no velho oeste. Ou um bebé que não é adoptado, por uma burocrata anafada de luvas e prepotências. Um lar de idosos onde os velhos esperam de olhar pousado num tempo que já não é o deles, e de repente solta-se um toque de telemóvel, na bolsa de uma velhinha, a entoar a Internacional: «De pé ó vitimas da fome...». Um dejembé, batucado por um percussionista africano, que foi integralmente construído com plástico reciclado. Um jogo de futebol de meninas muçulmanas, que se libertam temporariamente dos lenços e soltam os cabelos e os preconceitos para irem jogar futebol para um pátio, longe dos olhares. Uma espécie de kibutz habitado por meninos orientais fardados de camuflados que brincam com armas e formam as mais terríficas composições: simulam fuzilamentos, deitam-se com metralhadoras – enquanto na banda sonora vai passando uma ingénua canção infantil. O moleque que desce na favela, e transporta com ele um objecto suspeito, que desperta olhares desconfiados no autocarro, e afinal não é um instrumento de matança, mas um clarinete- e nós sentimo-nos envergonhados do preconceito da suposição. Um surpreendente flirt impossível entre um skin e uma africana...

A cada um o seu direito - nem mais nem menos...

O filme poderá ser visto, hoje, terça-feira, pelas 23horas, na secção In Progress, nas Curtas Vila do Conde

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Curtas: um dia animado

Competição Internacional
Um programa de luxo é o que se espera na Competição Internacional deste ano, com vários realizadores que já passaram pelo curtas e se tornaram referência do género. Quarenta e seis filmes seleccionados entre 2500 propostas. Entre os quais, está Contre-Jour, a última obra de Mathias Müller e Cristphe Girardet – experimentalismo puro, num jogo de luminosidade capaz de provocar ataques de epilepsia àqueles que não sofrem da doença. Igualmente experimental, mas dentro da linha coerente do seu realizador, está Retouches, do suíço Georges Schwizgebel. Mais um trabalho do mestre da animação europeia com estreitas ligações ao surrealismo. Um filme musical em que há uma extrema maleabilidade das formas, num jogo colorido em que tudo se transforma em tudo, como que elevando à imagem em movimento os princípios programáticos da Op Art. E os admiradores da animação com certeza não vão querer perder o último trabalho de Bill Plympton. O genial desenhador americano volta a construir uma história fantástica em menos que cinco minutos. Desta vez uma parábola sobre o amor cego – correr por amor não cansa. Uma das obras mais interessantes é, sem dúvida, Roma, da mexicana Elisa Miller Encinas. Roma não é mais do que um sabonete fabricado no México. O filme retrata umas horas na vida de uma ‘refugiada’ que faz uma pausa, nos confins da fábrica, numa viagem clandestina de comboio para um destino incerto.
A animação em destaque
Hoje passam dois fantásticos filmes de animação de escolas diferentes. Na Competição Internacional 1 (às 21.30), Retouches, de Georges Scwiezgebel, um dos grandes mestres da animação europeia, numa viagem de sonho, onde tudo se transforma em tudo. Na Competição Internacional 6 (às 22 horas), The Luv Race, o último trabalho de Bill Plympton, um dos mais subversivos ralizadores de animação americanos. A escolha é difícil.
Continuamos a oferecer passes para o festival. Siga por AQUI

Domingo, 5 de Julho de 2009

Palma de Ouro Português passa hoje no Curtas

Panorama PT
Uma oportunidade rara para ver numa sala portuguesa Arena, o filme de João Salaviza, que ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes. A curta deve estrear lá mais para o final do ano. Para já, vai estar em Vila do Conde, inserida no Panorama PT 2009, onde são exibidos filmes que, por terem passado noutros festivais portugueses, não foram apurado para a competição. É também o caso de Passeio de Domingo, de José Miguel Ribeiro, a última animação sobre volume do autor d’A Suspeita (com a qual ganho o Cartoon D’or). Conta a história de uma família bem portuguesa. Ruínas, o documentário sem pessoas de Manuel Mozos, também é uma das obras aguardadas. Apesar de durar menos de 60 minutos, o filme ganhou o prémio para melhor longa portuguesa no Indie 2009. Também no Indie foi galardoado, com o prémio do Publico, Visita Guiada, um documentário de Tiago Hespanha e João Matos, sobre guias turísticos em Portugal.
Panorama Nacional 1 (Hoje, dia 5, às 21.30)
MI VIDA EN TUS MANOS
3X3
ARCA D'ÁGUA
PASSEIO DE DOMINGO
ARENA
Panorama Nacional 2 (Amanhã, dia 6, às 23.o0)
NACIONAL 206
VISITA GUIADA
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Sábado, 4 de Julho de 2009

Teste os seus conhecimentos em curtas!

Curtas de Vila do Conde arranca hoje!

O maior festival de curtas-metragens do país está de volta e melhor do que nunca. O Curtas de Vila do Conde, que decorre de 4 a 12, migra para o remodelado Cine-Teatro Neiva, que esteve fechado durante quase duas décadas, abandonando o Auditório Municipal. Ganha assim espaço para crescer, a contra-ciclo da crise, com duas salas com lotação total aproximada de 600 espectadores. A programação mantém-se exigente e estende-se a espaços expositivos: a galeria Solar (que já existia) e o recém inaugurado Centro da Memória. Um festival cada vez mais ecléctico, que só é curto no nome.
Hoje, na abertura, o grande destaque vai pata o virtuoso guitarrista Norberto Lobo, que cria uma banda sonora para Tabu, o último filme de Murnau. A não perder, às 22 horas, no Neiva. Logo a seguir, às 24, a ante-estreia nacional da última obra de Jim Jarmush, The Limits of Control.
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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Ganhe um passe para o Curtas de Vila do Conde!

Está quase começar o maior festival de curtas metragens do país. De 4 a 12 de Julho, na semana intensa de filmes, que o FINAL CUT vai acompanhar frame A frame. Vinde ou ide, consoante o vosso GPS...

O Final Cut oferece-lhe um free-pass para todas as sessões de cinema do Curtas de Vila do Conde (excluindo as de abertura e encerramento).

Para tal, basta enviar a resposta certa para finalcutvisao@gmail.com:

Veja as seguintes imagens...

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O cinema começou com uma curta metragem realizada por dois irmãos. Quais são os autores de «Saída da Fábrica»?

a) Irmãos Coen

b) Irmãos Dardenne

c) Irmãos Grimm

d) Irmãos Lumière

Nota: Se for um dos contemplados, pode levantar o seu free-pass a qualquer altura do festival. Embora o passe o permita, não é necessário acompanhar os oito dias do festival do princípio ao fim.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Uma família em contramão

Ursula Meier, a premiada e estreante realizadora suíça de Home, uma espécie de road movie ao contrário, mas que também é um filme de amor, mas que também é um filme de guerra... em discurso directo no FINAL CUT


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FINAL CUT> Sabemos que, no cinema (e nas artes em geral), é corrente aproveitar-se toda a carga metafórica de alguns elementos, como as pontes, a água, a lua, etc… A Ursula conseguiu encontrar uma metáfora absolutamente poderosa numa auto-estrada. Porquê utilizar uma auto-estrada para contar a história de uma família ?
URSULA MEIER- Home é antes de tudo uma fábula contemporânea sobre a família. A abertura da auto-estrada, metáfora do mundo que escorre por entre as janelas dessa família – um mundo barulhento, perigoso, poluente, ameaçador – age como um lobo no seio familiar e revela as suas disfunções e maleitas profundas. A vida, a poucos metros das viaturas, dos camiões, das caravanas, das motos, - cujo o número não cessa de aumentar dia após dia para atingir o seu climax nos engarrafamentos de partida para férias, e num barulho cada vez mais ensurdecedor - torna-se, pouco a pouco, insustentável para essa famíla.
E cada membro da família tenta gerir a situação com os seus próprios meios. Para manter a unidade e a coesão familiar, cada personagem conserva os seus sofrimentos para si mesmo, e ‘desce’ ao seus interiores, às suas zonas turvas, afundando-se na sua própria loucura. Como a jovem adolescente Marion que volta a sua inteligência contra si própria, convencida de que as suas borbulhas, não mais do que mero acne, são devidas à poluição da auto-estrada. Através do comportamento cada vez mais louco das personagens, vamo-nos apercebendo que o perigo talvez não venha da auto-estrada, do mundo exterior, mas do interior da própria família…

O seu filme tem vários níveis de leitura. Trata-se de uma família que se fecha, que diz não, que se condena a si própria a uma prisão domiciliária. Podemos dizer que esta é uma história de resistência ?
É uma história de resistência, mas sobretudo e, antes de mais, é uma história de amor. Esta família ama-se, talvez mesmo demasiado, o que a torna numa família com tendência para a fusão, e que vai literalmente fundir-se em face do perigo representado pela abertura da auto-estrada. Como na cena em que os membros da família dormem todos juntos, os corpos encaixados uns nos outros, dentro do único quarto que dá para o lado dos campos e que é o mais silencioso.
Mas é sobretudo a mãe, interpretada por Isabelle Huppert, que procura essa felicidade familiar, e esse amor que dá energia ao resto da família e, em particular ao pai, interpretado por Oliver Gourmet, de resistir face ao agressor. Aquela mãe, incapaz de abandonar o seu espaço, tenta provar aos outros que não só é possível continuar a viver naquela casa, como isso até pode ser divertido e fora do vulgar. Daí essas cenas de comédia, em que a mãe lança o lanche por cima da auto-estrada aos filhos, bloqueados do outro lado das vias. Essa mãe pensa que eles vão ser mais fortes que a auto-estrada, que o amor uns pelos outros vai ser mais forte do que o mundo. Essa defesa familiar e essa fusão crescente dá lugar a estranhos momentos de felicidade, graças aos quais a família encontra forças para enfrentar o mundo hostil. Mas inexoravelmente o seu pequeno canto de paraíso transforma-se, dia após dia, num verdadeiro inferno… Tinha vontade que as personagens fossem mesmo até ao fim, até que não lhes restasse escapatória, que elas tocassem o fundo, para então encontrar forças para escapar…

Antes da abertura da auto-estrada, esta família parece estar assente num ponto de equilíbrio, mas mesmo assim não parece uma família normal… Porque é que escolheu o WC como ponto de reunião familiar ?
Essa família vive afastada do mundo para encontrar um equilíbrio que visivelmente tinha perdido. No seio da família reina um ambiente jovial, mesmo que tenha adoptado este estilo de vida longe do mundo. Esse sentimento de isolamento vai tornar-se mais e mais perceptível e evidente, com a entrada em funcionamento da auto-estrada, que não faz mais do que catalisar e colocar em evidência uma situação que já existia. Assim que o mundo os encurrala, esse equilíbrio revela-se bastante frágil.
As casas de banho, assim como as cozinhas, são lugares importantes nas famílias. É aí que as coisas mais importantes se dizem, certamente por serem locais íntimos. A casa de banho é o espaço do corpo, e é, para mim, o sítio ideal onde eu posso mostrar o amor entre os membros de uma família com esta tendência para a fusão. É aliás, também o local onde o casal se reconcilia, depois de uma violenta discussão.

A família não abdica do seu espaço, mas também não abdica do direito de fazer o seu próprio ruído. No seu filme, o som está muito bem trabalhado… Sente-se o mundo invasor através do barulho…
Antes de «ver» este filme, eu «ouvi-o». Ouvi o barulho contínuo dos carros e dos camiões a passar constantemente na auto-estrada. Um barulho, cada vez mais denso que atinge o seu climax , mas que depois diminui, pouco a pouco, à medida do emparedamento, dando lugar a um silêncio opressivo e angustiante, durante o qual, os próprios ruídos dos membros da família se tornam tão insuportáveis para eles como o barulho da auto-estrada. .. Como se a banda sonora do filme e a sua curvatura fosse não somente a musica do filme mais também a sua estrutura e o seu movimento. Ao longo do filme, o ruído da auto-estrada torna-se, a pouco e pouco, a matéria do filme de uma forma orgânica. Esse barulho ininterrupto vai começar a corroer muito levemente o interior das personagens. Noutra escala, essa experiência torna-se também a mesma do espectador que faz, através das personagens, a experiência quase física dessa vida nas bermas da auto-estrada. Eu mesma escrevi este filme, escutando diferentes bandas sonoras com diferentes densidades de tráfego, conforme a fase em que me encontrava na escrita do argumento. Gravei um CD com diferentes faixas: tráfico pouco intenso, tráfego intenso, tráfego muito muito intenso... Tornou-se, por momentos, uma escrita esgotante mais eu tinha mesmo necessidade de me colocar no lugar das personagens para escrever.

Porquê a opção das cores contrastantes e dos figurinos também contrastantes, sobretudo os da Isabelle Hupert, que por vezes têm um estilo marcadamente anos 50?
No início do filme, a imagem é muito colorida (o verde da relva, o azul do céu, o fato de banho e a toalha colorida da Judith), mas depois, à medida que a família se vai retirando para o interior da sua casa e se começa a emparedar, a imagem torna-se monocromática, quase a preto e branco. Há cada vez menos luz solar, esta é substituída pela luz artificial dos néons que Michel instala por toda a casa. Então, passa a haver, entre o som e a imagem um efeito de vasos comunicantes: quanto mais há silêncio na casa menos há luminosidade e espaço por causa das camadas e camadas de tijolos colocadas por Michel. Eu e a directora de fotografia, Agnés Godard, trabalhámos com base em fotografias. Eu andava fascinada pelo trabalho fotográfico de Jeff Wall, em particular pela foto Insónia, onde se vê um homem que dorme sobre a mesa da cozinha. O decorador acabou por construir uma cozinha igual à da foto, que corresponde a uma cozinha dos anos 50. «Home» é antes de tudo uma fábula, e eu não tinha vontade de situar nem de datar o filme. É uma filme contemporâneo, que se poderia passar nos anos 80, e poderia ser localizado em França, na Bélgica, na Suiça, ou na Alemanha… Pouco importa. É essa mistura de épocas que me interessa. Quanto aos figurinos da personagem de Isabelle Huppert surgiram de uma vontade de que cada roupa contradissesse a precedente: numa cena ela está vestida como uma «dona de casa», na cena seguinte tem um visual mais rock, noutro mais adolescente… Foi uma forma de criar um enigma em redor das personagens, sobre as quais não sabemos grande coisa, nem o seu passado, nem em que trabalham… Ainda que o filme se passe no campo, é interessante vesti-los como citadinos, pô-los de sapatos de salto alto para atravessar a auto-estrada. É uma maneira de fazer ver ao espectador que esta família vive afastada do mundo, não por amor ao campo mas para encontrar um certo equilíbrio e uma felicidade perdida.

No filme, a filha mais velha fecha-se no seu mundo, como uma concha, mas ela é a primeira a escapar, antes de toda a família também se fechar como uma concha tumular….
Judith protege-se desta família de fusão com a sua música Heavy Metal, que lhe serve de filtro entre ela e o mundo, um filtro sonoro, mas que funciona às mil maravilhas, porque a sua família deixa-a em paz. Judith é uma personagem imóvel, limita-se a ficar deitada no jardim a apanhar banhos de sol e a cumprir um número mínimo de tarefas. Eu disse à actriz que interpretou essa personagem que ela tinha qualquer coisa de À Espera de Godot, de Samuel Beckett. O seu comportamento desajustado e doentio, criado desde o princípio do filme, não é mais do que, na verdade, o primeiro sintoma visível da disfunção familiar. Com efeito, ninguém lhe diz: «Mexe esse rabo, vai procurar trabalho! Põe a música mais baixo!».
Ela transforma-se voluntariamente num objecto, num legume de jardim mas não deixa de pensar. Judith é uma personagem misteriosa, discreta, mas que é, ao mesmo tempo, objecto dos olhares de todos: dos membros da sua família, mas também dos condutores que desfilam à sua frente na auto-estrada. Judith, na procura de um «algures», tem necessidade desse movimento incessante do fluxo da auto-estrada, que alimenta os seus sonhos e representa a partida, a sua, num futuro próximo. Durante os engarrafamentos, Judith está completamente «absorvida» pelo fluxo das viaturas. A sua fuga imprevista e surpreendente para o espectador não é menos longamente reflectida. É ela, aliás, que vai salvar o gato, libertando-o da sua corda.

Podemos interpretar este filme como uma metáfora de certos enclaves territoriais, como ilhas rodeadas de outras nações poderosas e globalizantes? Como a Palestina, ou como o seu próprio país, a Suíça?
Justamente. Esta família vive numa «quase ilha», que quando a auto-estrada abre se torna literalmente numa ilha. Ao escrever o guião, o meu produtor fez-me ver que este filme fala tremendamente da Suiça, do seu enclausuramento (basta pensar nos abrigos anti-nucleares suíços). Isso nunca foi consciente da minha parte, até que essa reflexão me surgiu. Assim que a auto-estrada se abre, ela torna-se numa fonteira intransponível entre uma família e o mundo. O filme torna-se pouco a pouco um filme de guerra: as personagens compram provisões, atravessam a auto-estrada por um túnel, protegem-se contra os efeitos da poluição sonora… É engraçado que faça essa menção à Palestina, porque eu vi um magnífico documentário sobre a construção do muro entre a Palestina e Israel chamado «Mur», de Simone Bitton que me influenciou fortemente na escrita deste filme.

Como é que nós podemos compreender esta ligação da família ao seu espaço? Será que podemos ter um ponto de vista optimista, porque é, afinal, possível criar raízes na infertilidade do alcatrão?
Este enraizamento ao lugar está totalmente ligado à personagem da mãe que é o ponto vital desta família. Ela é uma mulher frágil, que não é verdadeiramente uma mãe. Ela jamais larga a sua casa, excepto para esperar os seus filhos à chegada do autocarro. Não sabemos nada do passado desta família, e muito menos, em particular, desta mulher que deve ter sido difícil. Os membros da família adaptaram-se à fragilidade desta mulher que se vai revelar ao longo do filme. Sente-se que, se esta família vive nesse estranho sítio, retirada do mundo, deve ser por causa dela… E que se a família não se vai embora logo que a auto-estrada abre é também por causa dela, que, como uma planta, não pode ser transplantada… Esta família criou literalmente raízes neste asfalto que os vai engolir totalmente…

No fim do filme, mudamos radicalmente de ponto de vista. Deixamos de ter o ponto de vista da família que avista a auto-estrada, passamos para um travelling final, com aquilo que temos por hábito ver, quando viajamos de carro pela auto-estrada. Finalmente, o movimento… Parece que só no final do filme o road movie poder começar …
A singularidade deste drama familiar reside no facto de ela viver a poucos metros dos milhares de pessoas que transitam na auto-estrada, não se mantendo ao abrigo dos seus olhares. Reciprocamente, os automobilistas são para esta família considerados como anónimos. O mundo da auto-estrada e o mundo desta família permanecem mundos paralelos, que jamais interagem. A família limita-se a receber os fragmentos dos que desfilam diante dela: os seus apelos, os seus sinais, o seu lixo, os seus dejectos, a «rádio-autoroute», uma rádio destinada unicamente a esse mundo, o mundo em movimento… À parte do último plano do filme, a câmara está sempre no ponto de vista da família, permitindo ao espectador viver essa situação com as personagens e entrar, pouco a pouco, dentro da lógica de cada um. A auto-estrada, tal como um rio contínuo, revela-se como uma espécie de ecrã, onde cada personagem pode projectar as suas próprias angústias e neuroses…
Ritmado pelo movimento incessante do fluxo e refluxo dos carros e camiões na auto-estrada, Home não é um road movie mas a sua imagem inversa e negativa. Há imenso movimento em Home mas nunca se viaja para lado nenhum. A viagem é para os outros, para aqueles que desfilam constantemente aos olhos da família. Para esta, a vida não é on the road, mas à beira da estrada. Home é uma espécie de expedição sem deslocação. É uma viagem interior, uma viagem mental. É somente no fim do filme que o road movie pode começar…


Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Quem tem medo de Michael Jackson?

Thriller, de Michael Jackson, realizado por John Landis (versão integral)
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Até aqui, no Final Cut, nos deixámos contagiar pela onda revivalista de Michael Jackson. Mas não sou daqueles que, subitamente, o transforma no herói da sua vida. Em nome próprio confesso que não tenho nenhum disco do cantor americano nem tenciono comprar (muito menos agora que o stock se está a esgotar nos armazéns). Digo ainda, correndo o risco de passar por terrivelmente presunçoso, que tal não faz grande falta à minha discoteca de quatro mil títulos. Mais facilmente compraria o vídeo, que saiu em 1997, com a compilação dos seus melhores telediscos. Porque a música de Jackson ganha uma nova dimensão quando se vê. Verdade que sim. E Thriller, em concreto, não só foi o álbum mais vendido de sempre, como um dos mais marcantes telediscos da história da música pop, concedendo uma nova dimensão ao género que, se não é cinematográfico, é pelo menos televisivo. E, aos poucos vai ganhando um estatuto mais nobre, ao ponto de já haver crítica especializada e festivais prestigiados, como o de Vila do Conde que está prestes a começar, incluem uma secção do género nas suas sessões competitivas.
Realizado por John Landis, então um principiante em filmes e, sobretudo, série de terror, Thriller traz a enorme inovação de ser um filme antes de um teledisco que ilustra imagens. A curta-metragem começa antes da música e termina depois. Dura, no total, oito minutos (a versão integral, aqui apresentada, tem 13!) – duração incompatível com os moldes da MTV de hoje. A história está bem contada e homenageia o actor Vincent Price, autor de um rapa que deu origem à música. É um filme de zombies musical, com coreografia à altura (concebida por Michael Jackson e Michael Peters), emoção, divertimento e terror, e uma punch line que agora, depois da sua morte, poderá parecer, no mínimo sinistra.
Goste-se ou não, com o seu talento de pop star, bem-sucedido na arte de construir as massas, Michael Jackson protagonizou um dos telediscos mais hipnotizantes de sempre, sustentando a ideia de que as imagens em movimento são uma ferramenta essencial para vender música. E basta um tão eficaz filme de zombies de série B para catapultar um single para os tops. Estávamos em 1983. Entráramos definitivamente nos anos 80.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Tubo sem escape

Home, Lar doce Lar, de Ursula Meier






É a história de uma família que tem uma auto-estrada no quintal. Ou será antes a história de uma auto-estrada que tem uma família atrelada numa berma.

No caso de Home, Lar Doce Lar, uma muito invulgar primeira longa da realizadora suíça Ursula Meier, ambas as definições fazem sentido. Para este filme teria de se abrir uma nova classificação de géneros. Porque ele é um road movie ao contrário. Não são as personagens que transitam. Quem passa incessantemente por eles é o trânsito. Estamos, como na música dos Talking Heads na estrada para lado nenhum...

O filme divide-se em duas partes. Na primeira, acompanhamos o quotidiano de uma família bastante ruidosa, e muito lúdica. Os pais (a mãe é Isabelle Huppert), duas filhas adolescentes e um miúdo (Kacey Mottet Klein – e atenção que esta é uma interpretação infantil notável)...

Esta família não tem uma particularidade. Tem várias particularidades. A mais visível é a circunstância de viverem todos cinco numa casa isolada no meio da pradaria, mesmo junto à berma de uma auto-estrada, que nunca chegou a inaugurar. E aí a realizadora explora todas as potencialidades visuais e insólitas de ter uma família que ocupa com toda a exuberância um espaço a que não se costuma ter acesso. O filho rola por ali de bicicleta e de trotinete, ao fim da tarde reúnem-se para jogar hóquei no asfalto, gurdam os sapatos nos rails de protecção, suspendem-lhe a parabólica em cima, deixam espalhadas brinquedos, piscinas de plástico, cadeiras, bolas, patins naquele espaço imenso...

A outra particularidade desta família é usar a casa de banho como ponto de encontro. Enquanto as outras se reúnem na sala, ou na casa de jantar, esta reúne-se no WC. E tem os seus próprios rituais, os seus jogos, as suas rotinas, os seus códigos... Percebe-se que encontraram algures uma base de equilíbrio, que lhes assegura a funcionalidade.

Entretanto, algo começa a mudar. «Eles vêm aí...» Um dia, o miúdo aparece com marcas de alcatrão fresco, brinca com a tinta branca dos traços descontínuos. A família aguarda com apreensão que a estrada seja aberta ao fim de dez anos de esquecimento. Há uma cena à ET, em que uns tipos responsáveis pela manutenção rodoviária lhes invadem «o quintal»... E repõem os rails no sítio, e retiram toda a artilharia lúdica da família, empurram a tralha para as bermas da estrada.

Chegamos à segunda parte do filme. A abertura da auto-estrada é a ameaça, a infecção que pode destabilizar esta família. O primeiro carro, o primeiro ruído, as primeiras partículas de toxinas... A primeira medida: prender o gato. Vemos como é, afinal, instável o ponto de equilíbrio da funcionalidade desta família. Em breve ela vai perder o direito de fazer o seu próprio barulho.

Estavam isolados do mundo, mas o mundo espalha-se como crude num oceano. O mundo cerca-os, aperta-os, circunscreve-os. A opção da realizadora pelos planos fixos e por algumas câmaras à mão transmite-nos esta ideia de cerco, de claustrofobia, de bolha que pode rebentar a qualquer momento.

Face à ameaça, a família escolhe ficar, numa lógica de resistência passiva. Abandonar o lar doce lar está fora de questão. Eles encontraram a fertilidade na aridez do asfalto, criaram raízes no alcatrão. Têm direito ao seu chão, por mais impossível que seja. A auto-estrada começa a fragmentar as ligações, e a minar-lhes a coesão. Há uma espécie de muro de Berlim entre eles, um fosso da aldeia de Asterix... A família dá os primeiro sinais de colapso iminente.
Em lugar de fugir, esta família encasula-se, fecha-se sobre si como um caracol, tenta poteger-se do ronco infernal e constante dos motores, das partículas poluentes. Dormem numa cama comunitária... Mas o mundo lá de fora infiltra-se, pelas frestas, através das paredes, por todas as frinchas, por todas as fendas. É uma luta inglória, uma casa contra o planeta Terra, uma família-David contra o mundo-Golias, só que na vida real a globalização engole e digere as suas pequenas ilhas dissonantes.

Agora temos uma família encurralada, já não se sabe se a ameaça vem de fora, ou de dentro. Com uma fotografia excelente (Agnés Godard), um extremo cuidado na composição dos planos, umas cores contrastantes, sempre acentuadas por um calor e sufoco omnipresente, a realizadora faz-nos entrar neste reduto disfuncional de uma família, que tenta resistir a todo o custo, como um enclave territorial, como uma Palestina ou mesmo uma Suíça, rodeada de países grandes e aglutinadores por todos os lados.

Algo nos remete para o surrealismo do Arranca Corações, de Boris Vian, aquela mãe, Clementine, que tenta proteger os seus três filhos gémeos, e resguarda-os do mundo, fechados dentro de um armário... Ou mesmo para o casulo de Julianne Moore, quando ela protagonizou a neurótica dona de casa, no filme Safe, de Tood Haynes. Tal como esta mulher descobre que tem uma alergia à poluição, aos ácaros, às partículas e ao mundo em geral, também esta família se vai desligando, e cortando as passagens – até as de ar.

A auto-estrada é uma passagem. Para esta família sitiada é um beco sem saída. O lar doce lar é agora um bunker, que começa a ter muito de tumular.

No final, há uma inversão da perspectiva. O ponto de vista era o da família que assistia ao mundo ruidoso, poluente e sujo a bloquear-lhes as saídas. Agora temos um travelling final, como se olhado de quem transita pela auto-estrada e, através do vidro do carro, repara na paisagem que desfila a 120 km/hora. E naquela insólita casa de janelas e portas emparedadas, mesmo na berma da auto-estrada. O verdadeiro on the road podia começar aqui.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

HOME: CONVITES DUPLOS para o PORTO

HOME, Lar Doce Lar, de Ursula Meier, é um road movie estático. Fala de uma família que vive literalmente on the road e a auto-estrada é o seu jardim. Uma parábola ecológica vinda da Suíça.

Depois de Lisboa, o Final Cut oferece bilhetes para a ante-estreia de HOME no PORTO, no MEDEIA CIDADE DO PORTO, dia 30, às 21.45.

Basta ver as seguintes imagens e enviar a resposta certa para finalcutvisao@gmail.com

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Isabelle Huppert, protagonista de HOME, teve uma das suas interpretações mais marcantes numa obra de Michael Haneke. De que filme se trata:

a) A mulher que acreditava ser Presidente dos Estados Unidos da América

b) A mulher que viveu duas vezes

c) A mulher sem cabeça

d) A Pianista

Chapéus já não há muitos

Coco Avant Chanel, de Anne Fontaine






Diz que era uma rapariga com imenso expediente. E muito jeito para costurar chapéus. Primeiro arranjou um amante rico que gostava de cavalos.

Depois (ou mais ou menos em simultâneo) arranjou outro amante rico que gostava de carros.

Às expensas de ambos, arrecadou relacionamentos e dinheiro para montar um negócio, e é então que acaba o filme...

Coco Avant Chanel, de Anne Fontaine, bem indiciava que o filme acabava quando poderia (eventualmente, quem sabe...) começar a interessar. Esta fúria dos biopics e da revelação da mulher por detrás da marca, da fadista Amália ou da cantora Piaf é no que dá... Filmes mal costurados, com bainhas descosidas e que se arrastam penosa e incipidamente da primeira cena até aos créditos finais. Nem os loucos anos 20 nem uma mal-humorada Audrey Tautou nem sequer, pasme-se!, os figurinos (o que parece bizarro num filme sobre um ícone da moda) conseguem remendar este rasganço.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

FINAL CUT oferece BILHETES para HOME


É um filme estranho, este Home, primeira longa da realizadora suíça Ursula Meier, que esteve na semana da crítica em Cannes, e ganhou vários prémios em festivais.

Passa-se numa auto-estrada, mas não se chega a lado nenhum.

Está cheia de engarrafamento e solidão.

Está cheia de espaço e de falta de ar.

Está cheia de união familiar, mas é tanta, que esta união pode estrangular de aperto.


O FINAL CUT dá-lhe acesso a esta família da auto-estrada, sem pagar portagem.
Para ganhar Convites Duplos para Terça-Feira, dia 30 de Junho, às 21h45, no cinema KING, basta responder às seguinte questão para o e-mail finalcutvisao@gmail.com

Quem é a actriz que faz de mãe em HOME?

a) Anne Bancroft

b) Eunice Muñoz

c) Isabelle Huppert

d)Pelágea Nilovna

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Gripe V: Tenham mais ou menos medo




Toda a gente sabe. Que eles não podem apanhar sol, nem com factor de protecção 40. Que não apreciam o odor a alho. Que fraquejam ao sinal da cruz. Que procuram um sítio sossegado para repousar. Que têm um apetite voraz, mas fazem uma dieta à base de líquidos. Que o primeiro tipo a lançar a pandemia mundial vivia num castelo inóspito, nas montanhas da Transilvânia - e era romeno e tinha sangue azul, no sentido menos literal da expressão. E que o período de incubação é variável, mas assim que contraído o vírus V, a terapêutica mais indicada é uma estaca afiada pregada no coração – e há ainda quem aconselhe a decapitação, just in case...

E toda a gente está tão bem informada porque desde o princípio do século que a vida deste conde romeno (completamente ficcionada pelo escritor Bram Stoker) tem sido espiolhada, investigada, deslindada, esquadrinhada, revista e actualizada pelo cinema. Já travámos conhecimento com vários Dráculas. O de Murnau, completamente calvo, muito acoelhado, com dois dentes incisivos afiados. O de Boris Karloff (Dracula, 1931), que já ganhava o seu semblante clássico de capa e caninos salientes. Em 1979, apareceu um misto entre os dois, masa completamente único, o de Klaus Kinski (de Werner Herzog). E finalmente Gary Oldman, de Coppola – que também se tornou um clássico. Entretanto imensas criaturinhas sugadouras amedrontaram as audiências. Às vezes, de consistência mais esponjosa, como as de Rodriguez (Aberto até de Madrugada), que se pulverizam à paulada, ou mais indefesos, num tom arrepiado e gélido, mas cheios de design nórdico, como os do excelente filme de terror sueco (Deixa-me Entrar, de Thomas Alfredson). E outros mais sexys – com os irritantíssimos vampiros de Crespúsculo ou de Entrevista com o Vampiro, que só não apareceram neste inquérito por um puro acto de prepotência discricionária: os autores deste blogue não gostam dos filmes.

E o que prova que os leitores deste bolgue têm sentido de humor é o vencedor do inquérito desta semana ter sido o filme de Roman Polanski – Por Favor não me Mordam o Pescoço. Os vampiros de Polanski são grotescos, poeirentos, encardidos e maltrapilhos – e absolutamente inesquecíveis. O próprio Polanski e a mulher, a lindíssima Sharon Tate (dois anos antes de ser assassinada), também por lá andam, neste castelo mal ancorado num abismo, com lobos uivadores e talvez o melhor servente de Drácula da história do cinema. Chama-se Koukol, é corcunda, claro, tem mais gengivas que dentes e devora lobos. Mais tarde, Polanski regressou a este mesmo registo da comédia negra, com o incompreendido e também fantástico Piratas (1986).

O filme revisita toda a mitologia dos filmes de vampiros, ponto por ponto. Mas ao mesmo tempo trata logo de as subverter, quando faz aparecer um vampiro judeu, que não se deixa intimidar com cruzes. Ou um vampiro gay. A fotografia é fabulosa, o humor desconcertante, e basta dizer que é Polanski... Há cenas antológicas, autênticos gags chaplinescos, como a do próprio Polanski a fugir do vampiro gay num claustro. Ou a do baile dos vampiros, que podem rever acima.
A propósito: toda a gente sabe que os espelhos não devolvem a imagem aos vampiros.

Domingo, 21 de Junho de 2009

O miúdo, o filho e o rapaz


Histórias de Caçadeira, de Jeff Nichols






O novo cinema americano está bem de saúde e recomenda-se. É mais do que promissora a geração que se sucede a Hal Hartley e Jim Jarmush. Quem acompanhou o Indie Lisboa 2009, apercebeu-se disso quer no premiado Ballast, de Lance Hammer, quer em outras obras apresentadas, como o excepcional Wendy and Lucy, de Kelly Reichardt. Ambos histórias da América rural, de um país em crise, incapaz de esconder os seus alçapões, as misérias, as flagrantes assimetrias sociais, que contradizem um discurso pela liberdade e os dados que apontam os EUA como um dos países mais ricos do mundo e, sem dúvida, o mais poderoso. Estas contradições acentuam-se na chamada América profunda, cenário comum a Ballast, Wendy and Lucy e Histórias de Caçadeira, que acabou de se estrear em sala.
Histórias de Caçadeira, a primeira longa-metragem de Jeff Nichols (30 anos), não é tão vincadamente político como os anteriores. Mas ainda assim há um contexto a que o filme não escapa, pelo contrário, evidencia e utiliza primorosamente. Conta a história de três irmãos que foram criados «como cães». Mas que nem a cão chegam, porque o cão lá de casa ao menos tem um nome (Henry), enquanto a eles não foi concedido tal privilégio: chamam-se Filho, Miúdo e Rapaz. Alguém falou em casa? A casa existe, mas é do mais velho (Son), os outros acomodam-se por lá quando a mulher está por fora e, no resto do tempo, o rapaz dorme numa carripana, enquanto o miúdo acampa num jardim. Ambos não têm dinheiro para a renda, apesar de não estarem desempregados. Pelo meio ainda há uma personagem que passa a dormir no carro, porque a casa ardeu.
Do outro lado, há uma família com mais sorte: a segunda família do pai, pela qual ele os trocou de forma drástica. Uma família funcional, com tectos de betão e uma quinta para cultivar. Mas a assimetria social que lhe é favorável de nada lhes vale, nesta história de ódios profundos.
Há duas forças antagónicas, campos radicalmente opostos, que se digladiam por qualquer acha que faça a panela fervilhar. Numa história de rivalidades, tão típica das Américas, aqui justificada por acontecimentos familiares recentes. E não há nada que faça parar esta espiral de violência até às consequências mais penosas, que ganham força no contexto realista do filme.
Hal Hartley vem a propósito, por uma certa forma de construção dos diálogos, a qualidade da banda sonora e o estilo de montagem. O próprio jogo de personagens porventura se inspira no modelo do realizador americano. O filme é ajudado pela excelente interpretação de Michael Shannon, que foi nomeado para melhor actor secundário por Revolutionary Road. Tem a contenção certa e não precisa de grandes esforços para ser expressivo. Histórias de Calçadeira é o retrato de uma América que foi terra de colonos, aventureiros e foragidos, que cultivaram ódio em vez de batatas e encontraram na propriedade um álibi moral. Uma América moribunda, mas que ainda mexe.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

A bela é o monstro

Sedução Mortal, de Jonathan Levine







Não sei se já ganharam o estatuto de género cinematográfico, mas os filmes de terror para adolescentes tornaram-se num importante nicho de mercado pelo menos desde que Wes Craven iniciou a série Gritos. E já lá vai uma dúzia de anos. Têm-se seguido obras, quase todas menores, que perseguem o filão, criando uma série de regras sob as quais se devem gerir estes filmes, de que fazem parte, naturalmente, uma forte identificação com o meio. Obviamente, que tudo isto está desenhado para a realidade americana. Curiosamente, ao contrário do que era típico no outro cinema de terror, que privilegiava terras geladas e ventosas, ermos e castelos, neste subgénero (chamemos-lhe assim) parece haver uma predilecção por terras áridas, soalheiras e planas – como é o caso do Texas, apresentado como um imenso Alentejo sem urze.
Sedução Mortal, de Jonathan Levine, é o típico filme de terror para adolescentes, com todos os ingredientes, escolhidos a dedo, para agradar este, por vezes tão difícil, público-alvo. Aqui a fórmula é clara. E inclui algum picante (um ambiente de sexo, drogas e rock’n’roll), anti-educativo, que certamente desagradará aos pais. Estimula assim de forma ainda mais explícita o estigma transgressor de ver um filme provavelmente classificado como interdito a menores.
Passa-se no Texas, primeiro numa escola secundária e depois num rancho. Esteticamente está desenhado como um enorme teledisco, por um lado, e como uma série televisiva (uns Morangos com Açúcar um bocadinho melhores), por outro. As próprias personagens parecem saídas do Beverly Hills 90210 (desculpem não dar exemplos mais recentes). E do argumento fazem parte festas na piscina e conversas sobre gorduras.
Estruturalmente está organizado de forma bastante convencional. Após o incidente inicial, durante cerca de metade do filme o realizador entretém-se a pregar-nos pequenos sustos, servindo-se da montagem, com personagens que aparecem de repente, sem que aconteça mais nada além disso. E, a partir daí, as coisas, o massacre do Texas, começa mesmo a acontecer.
Sem clamorosas falhas de argumento, procurando a esperada surpresa do final, consegue alcançar um nível mediano. Com a vantagem de também não se propor a ir mais longe do que isso. Uma montanha russa que não provoca grandes comichões na barriga.


Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

O papel! Qual papel?

Ligações Perigosas, de Kevin Macdonald






O maior defeito deste filme és tu, leitor.

Este despudorado insulto, com que Machado de Assis invectivava os leitores, também se aplica, neste caso, aos espectadores do novo filme de Kevin Macdonald. É um thriller político, que envolve poder, dinheiro e sexo, formalmente perfeito, sem falhas de ritmo nem de casting, com diálogos cumpridores, uma banda sonora rebarbativa e uma trama razoavelmente bem urdida. O que o torna, então, intrinsecamente desinteressante? (tão desinteressante, aliás, como O Último Rei da Escócia, do mesmo realizador que desperdiçava um plot e um actor cheios de potencial). O que o condena a permanecer para sempre nesse limbo de esquecimento, em que naufragam rapidamente uma certa categoria de filmes? Há filmes bons, há filmes maus, e depois há os prescindíveis, aqueles que não atravessam para a outra margem, e se afundam simplesmente naquelas zonas onde a memória é lodosa e submersível. Ligações Perigosas pertence a esta categoria anfíbia, como as criaturas que habitam esses charcos da desmemória. A começar pela tradução do título, do original intraduzível State of Play...
Quantos filmes houve, depois da adaptação do Laclos (Ligações Perigosas), que já se chamaram assim? Que crise de originalidade terá atacado os nossos tradutores de títulos?

Se parece tudo bem, afinal o que falta a este filme? Quando é mau é porque é mau, quando não é completamente mau, é porque se esquece... A conclusão é mesmo esta: o maior defeito deste filme és tu, espectador. Que já viste tantas vezes, antes, a mesma fórmula, o mesmo modelo, o mesmo preceito, que criaste esta espécie de resistência auto-imune, por excesso de doses acumuladas.

O filme de Macdonald é perfeitamente funcional, um exemplo típico do mainstream correctinho ao melhor estilo de Hollywood. Não subverte nenhuma das convenções do género, nem sequer tenta inovar, segue pela via garantida do que já foi testado inúmeras vezes. Há um jornalista honesto, um congressista emergente e a sua amante, morta em circunstâncias misteriosas. E depois tudo progride numa série de turning points ágeis, de twists e contra-twists, em que o que aquilo que é nunca é o que parece – como compete a todos os thrilers policiais.

Russel Crowe é este jornalista cheio de estilo que conduz um carro decrépito e também cheio de estilo. E o filme começa com o jornalista a chegar ao local do crime e a entrevistar, também com muito estilo, um polícia. Já estamos mais do que convencidos de que este não é um jornalista qualquer. Mas já na redacção, vem a confirmação, quando lhe vemos a secretária coberta com pilhas instáveis de papelada. Aqui chega o toque do século XXI do filme. Reflecte sobre a importância do papel. Qual papel? Ele é um jornalista da velha guarda, ainda do tempo dos papéis pintados com tinta, daqueles resistentes, em vias de extinção que continuam a achar «que são jornalistas e não publicistas» (é sempre reconfortante ouvir isto). Pouco depois aparece a antagonista – uma jornalista blogger, que «despeja vómitos on line». São estes dois seres incompatíveis (mas prestes a perder o prefixo e a quebrar a barreira das novas tecnologias) que irão resolver o estranho caso do congressista (Ben Affleck) e sua amante assassinada.

Apesar de ter seguir todo o receituário do século passado, o filme está impregnado de século XXI. Não é só a trama que gira em torno da corrida ao ouro do terrorismo islâmico por parte de certas empresas duvidosas. Todo o ambiente é já o da América pós-Bush. A certa altura Crowe até diz «yes we can», a propósito de qualquer coisa - mas já ninguém diz esta frase impunemente.

Atenção: apesar de esquecível, este é um filme inteligente. Aproveitem: é bem capaz de ser o último filme adulto que terão oportunidade de ver até à próxima rentrée, porque daqui até Setembro, o melhor é mergulhar em apneia, até que passe a onda dos filmes silly que costumam inundar esta season. Ligações Perigosas pode não ter nada assim de muito profundo para nos transmitir, mas é sempre muito consolador ouvir dizer que, «apesar de as pessoas já não lerem jornais», que apesar dos «jornais serem papel de embrulho», as pessoas «ainda sabem a diferença entre notícias e lixo». Saberão? Enfim, são insultos a mais para um só post...