quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O mar que respiramos

Três Macacos, de Nuri Bilge Ceylan


O melhor filme do ano





Nem sempre os dias são dias passados. Aquele em que se vai ver Três Macacos do genial realizador turco e bergamaniano Nuri Bilge Ceylan e que conquistou em Cannes o prémio de Melhor Realizador. E este, que estreou tão recatadamente, sem pregões nem alardes, no dia de Natal, é, para mim, sem demasiadas hesitações, o melhor filme do ano 2008. É uma história de silêncios, segredos, mentiras, resíduos, poeiras, atmosferas, climas, ruídos, nada, coisa nenhuma... Há de facto uma transparência especial nos filmes de Ceylan que nos dão passagem, como uma ponte movediça. É um filme maravilhoso, tão perto da perfeição, é cinema puro.

A história gira em torno de mentiras em cadeia que se vão desdobrando, e denunciando, e ampliando. Há um político e que pede ao seu motorista para assumir as culpas de um atropelamento e ir para a prisão em seu lugar, em troca de dinheiro e de auxílio à família. O político engana toda a gente, o pai engana o sistema judicial, o filho engana o pai, a mãe também engana o pai e o filho... Depois há outra vez uma mentira de um assassinato, que torna este filme numa circunferência fechada, sem arestas nem solavancos. Mas há sobretudo os enquadramentos fantásticos, os ritmos, as respirações, os olhares, os grandes planos. E uma atenção desmedida aos céus, aos fenómenos atmosféricos, ao mar, às tempestades, que se anunciam, aos ventos que assobiam, e fazem erguer e girar as roupas e os cabelos. Já em Climas, o realizador, tinha dado um destaque sublime aos ruídos. A família mora frente a um impiedoso mar, e a uma também impiedosamente cadenciada linha de comboios. Tudo vai, tudo vem, como as ondas do mar, o embalo das carruagens, e o tempo que passa. Quando os actores (aliás, magnificamente dirigidos) caminham, neste filme, escuta-se sempre o rangido do soalho. É um filme cheio de trepidações, de reverberações, da poesia conspiratória dos sons... Escuta-se o bater das ventoinhas, o roçar dos tecidos, o crepitar da chuva... Uma contenção tão eloquente, uns planos lindíssimos, uma lentidão especial, uma fotografia exemplar neste filme onde o silêncio, o olhar e os ouvidos se transaccionam como mercadoria. Ainda bem que Três Macacos chegou, mesmo discreto, a tempo de ser o melhor filme do ano.

1 comentário:

Victor Afonso disse...

Adoro o cinema de Ceylan. Com Alexandre Sokurov e Béla Tarr forma-se o trio de grandes realizadores actuais. Mas como sempre, divide opiniões de forma radical...
(ainda não vi este filme)