quinta-feira, 5 de julho de 2007

E agora para algo completamente diferente

Death Proof, de Quentin Tarantino


Em Death Proof, Tarantino manipula a assistência, cria nos espectadores uma série de efeitos e reflexos pavlovianos, para os deixar com aquele olhar canino, à beira de prato vazio.



Quentin Tarantino é o maior reciclador cinematográfico do mundo. E usamos assim um tom hiperbólico – insolente, mas propositado. Porque Tarantino também é hiperbólico, e insolente, e (des)propositado... Com Kill Bill (2003) criou aquela mistura explosiva de filmes de artes marciais, de western sparguetti e de animação japonesa. Agora, com Death Proof, o realizador volta a vasculhar no lixo mais sórdido do cinema, desta vez o universo dos filmes série B que lhe colonizaram a infância e os gostos. Filmes a que regressava a todo o momento, frequentando os cinemas manhosos de LA, de chãos pegajosos e cheiros bafientos. E, também no novo filme, Tarantino revolve caixotes, reúne estilhaços, respiga, recicla, cita, transforma detritos, faz cinema sobre cinema, colecciona elementos da cultura pop, mistura tudo, mexe, incorpora. E o mais espantoso, é que consegue mesmo ir para algo completamente diferente. E no entanto...

E no entanto, depressa percebemos ao ver em Death Proof que entrámos no seu «infinito particular» (a expressão é roubada à Marisa Monte). É o «universo Tarantino», tão periférico, tão trash, e já tão clássico. O filme conta a história do psicopata, misógino e serial killer (Kurt Russel), que tem a cara sulcada por uma cicatriz e usa uma espécie de carro blindado para assassinar miúdas giras e com pouca roupa. Tarantino quis fazer um misto de slasher (terror para adolescentes) e daqueles filmes, de baixo orçamento, com tremendas perseguições no asfalto, em que os carros voam, explodem, abalroam, guincham no alcatrão, e as pessoas desafiam as leis da gravidade, andam nos tejadilhos e até saltam de uns para os outros, como abordagens de piratas.

E de um (ou vários) sub-géneros, Tarantino faz um género. Que é o «género-Tarantino». Por isso, bem-vindos ao mundo de Tarantino, «só não se perca ao entrar no seu universo particular». A primeira reciclagem é a do actor de filmes menores, Kurt Russel. Resgata-o, como em Pulp Fiction resgatara John Travolta, ou em Kill Bill II David Carradine. Ao contrário da estrutura narrativa descontinuada e de vai-e-vem de Pulp Fiction, ou a de capítulos e flashbacks de Kill Bill, Death Proof é desconcertantemente linear. O filme está dividido em dois blocos, separados cronologicamente por «14 meses depois». Cada parte inicia-se e desenvolve-se da mesma maneira. Depois, o realizador (que aqui também assina a fotografia, para além do argumento, como de costume) absorve os clichés, espalha o filme de convenções, para as subverter em seguida. E manipula a assistência, brinca, cria nos espectadores uma série de efeitos e reflexos pavlovianos, para os deixar com aquele olhar canino, à beira de prato vazio.

O «género-Tarantino» é um mundo. E o mundo de Tarantino está cheio de humor, às vezes quase sádico. Está cheio de lutas coreografadas, violência (neste, ao contrário de Kill Bill, muito cruas e pouco estilizada). E de diálogos vívidos e mordazes. E de piscadelas de olho, de referências cinéfilas, homenagens e citações. E de cigarros Red Apple (existem?). E outras convocações do próprio universo tarantiniano. Em Death Proof regressa-se ao amarelo-choque, a cor de combate de Uma Thurman. Há um telemóvel com toque de banda sonora de Kill Bill. Há um xerife que fala com «sun-number-one», como o que investiga a noiva Thurman. Há passagem bruscas do preto e branco à explosão de cor. Já para não falar no próprio cameo do realizador, desta vez enquanto dono de um bar esconso e com uma juke-box. Também aparece na capa de uma revista a Kirsten Dunst vestida à Maria Antonieta, de Sofia Coppola, uma das amigas pessoais de autor.

E no mundo de Tarantino nunca há polícias a importunar as mal-feitorias dos vilões nem as vinganças das heroínas (que também são um bocadinho vilãs, mas aí o espectador já está completamente condicionado a apoiar-lhes os sanguinários intentos). Há sempre duas escalas de maldade – em que uma consegue superar e quase achincalhar a anterior. Há sempre pés. Imensos pés de mulher (é o fetiche de Tarantino). Elas sempre lindas. Eles sempre mais velhos e canastrões.

E depois há a música. Sempre fantástica, muito atmosférica e essencial. Também quase sempre reciclada. Desde clássicos de rock dos anos 60 e 70 a (mais uma vez) Ennio Morricone.

Death Proof faz parte do projecto Grindhouse, abraçado a meias pelo realizador Robert Rodriguez (Sin City), que se juntou ao amigo Tarantino numa homenagem de mais de três horas a este tipo de cinemas «grindhouse», aquelas salas dos anos 70 (por cá também havia, antes da vaga multiplex), que só passavam reposições e subprodutos. Por vezes, exibiam duas sessões pelo preço de uma. Por isso, Grindhouse até tem um intervalo e falsos trailers, a anunciar filmes inexistentes, entre Death Proof e Planet Terror (de Rodriguez), também um pastiche muito seventy sobre zombies enlouquecidos (não são sempre?).

Ao contrário do que aconteceu nos EUA, em que os espectadores puderam ver os filmes juntos (tal como foram concebidos), na Europa, lamentavelmente, só irão ser distribuídos separadamente. A justificação para este esquartejamento é comercial, claro, e baseia-se no fracasso de bilheteira americano que o filme integral alcançou. Fica a consolação de a variante isolada de Tarantino oferecer uma série de cenas-extra, não contidas na versão dupla.

Tarantino regressa às películas deterioradas da sua infância, com o mesmo enlevo com que muitos amantes de música regressam agora ao vinil. E ao roçar da agulha, ao borbotar dos grãozinhos de pó, ao sobressalto dos riscos.
Death Proof está artificialmente deteriorado para se assemelhar aos filmes que passavam nessas salas decrépitas. Há riscos, interferências, películas queimadas, falhas sonoras, repetições, ilusórios saltos na projecção, como as velhas cópias submetidas às mais cruéis sevícias. Há zooms forçados, olhares directos para a câmara, campos e contra-campos pouco subtis. Tudo tem um ar vintage, usado e gasto. Tudo tem um tom baço, aquela cor bege dos filmes dos anos 70 – o que não impede de, neste, as personagens usarem i-pods e telemóveis.

Tarantino pode ser obsessivo, provocador, grotesco, kitsch, excessivo, no fundo infantil e, desconfiamos, até padecer do síndroma Peter Pan. Mas, afinal, quem deseja vê-lo crescer?

1 comentário:

Carol disse...

Como provar a existência de um "Universo" Tarantino?