quarta-feira, 20 de maio de 2009

Guerras e Pazes

Um Segredo Muito Nosso, de Dennis Lee




Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin




As famílias normais não têm nada de especial - já era verdade antes de Tolstoi ter inventado esta frase que abre a sua Anna Karenina. E neste, momento, estão dois filmes que merecem ser a assistidos, um a seguir ao outro, se os horários das sessões assim o permitirem. Um é Fireflies in The Garden (Um Segredo Muito Nosso), de Dennis Lee. Outro é Encontro de Natal, de Arnaud Desplechin.

O primeiro é americano, o segundo é francês, e são ambos sobre a família, sobre a disfuncionalidades gregárias, os esqueletos familiares escondidos dentro dos armários, os sótãos, as caves, etc, etc … De facto, o assunto parece tão profícuo quanto a genial ideia para um filme que Hitchcock escreveu num papelinho, durante a noite, para não se esquecer na manhã seguinte: «Boy meets girl». Também poderíamos escrever noutro papelinho esta simples story line - «um homem tem uma família»- e pronto, só isto dá enredo para tantas teceduras.

Nenhum dos filmes é particularmente interessante (embora o Fireflies... tenha alguma fluidez que, por vezes, lhe cai bem), por isso, o mais curioso será assistir a ambos como um puro exercício de «descubra as diferenças». E ver como é que o mesmo tema – a disfunção familiar – é tratado em ambos os filmes.

Em ambos há um reencontro familiar, de um clã que há muito não se reunia. Em ambos, tal acontecimento se deve a uma fatalidade materna – a morte no primeiro (Julia Roberts) ou um cancro (Catherine Deneuve) na segunda. Em ambos há uma ovelha negra da família – um filho do tipo trouble maker, que tem relações difíceis com um dos progenitores. Em ambos, há uma nora que pode mudar o equilíbrio familiar ou não… Em ambos há uma autoridade desafiada. Em ambos há algo escondido, um segredo, um mal estar latente que não se descodifica inteiramente.

Até agora quase parecem filmes clones, mas a verdade é que estão nos antípodas um do outro - apesar de ambos serem realizados por tipos novos, ou, pelo menos da mesma fornada geracional.

O francês esforça-se por adensar, complexificar, eruditizar, maçar, escarafunchar nas feridas, até ao tutano da medula óssea que se recolhe num saquinho de hospital… O americano, ao contrário, esforça-se por simplificar, tornar a narrativa mais etérea, menos real, menos explícita… O Fireflies in the Garden queria ter a leveza flutuante dos pirilampos – e acaba como eles, pulverizado pelas raquetadas dos miúdos no quintal. O Um Conto de Natal, queria ter a viscosidade arrastada de um caracol – não flutua e acaba como ele: ao fundo.

2 comentários:

Chico disse...

Manuel, gostei muito deste teu blog de cinema. Eu tambem, amadoramente dou minhas opinioes sobre o que assito. Enfim, voltarei mais vezes e gostaria de adicionalo ao mue blog, caso nao te importes.

Abraco, Chico

Manuel Halpern disse...

Obrigado pela visita. E volta sempre. Claro que não me importo.... é um prazer