quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Robô Crusoé

Wall.e, de Andrew Stanton



Se quiserem um ser de outro mundo a lançar um olhar melancólico para o espaço, como no ET – o Wall.e tem. Se quiserem um computador dominador como o Hall 9000 ou uma valsa espacial de Strauss, como no 2001, Odisseia no Espaço – o Wall.e tem. Se quiserem uma Terra pós-apocalíptica, árida e intoxicada, como no Blade Runner – o Wall.e tem. Se quiserem um robozinho de falas tão minimalistas como os «bips» do R2D2, em Star Wars – o Wall.e também tem. Não foi propriamente no lixo da ficção científica espacial que Andrew Stanton, o realizador do filme, andou a vasculhar inspiração. Mas tanto quanto a sua criatura, um robô catador de lixo, que junta, compacta e empilha, também o criador respigou, reciclou, recompactou e, sobretudo, renovou o conceito de animação da Disney-Pixar. Por tudo aquilo que contém – e ainda mais pelo que acrescenta – este já é considerado um clássico, e até verosímil candidato a Óscar de Melhor Filme. Nos primeiros 40 minutos sentimo-nos numa galáxia muito distante da Disneyworld: não há diálogos, nem narração, nem cor, nem plot... Apenas este planeta inabitável, uma imensa lixeira, torres de detritos acumulados, pilhas de resíduos inúteis. E este Robison (Robô-son?) Crusoé do futuro. Parece que quando todos abandonaram a Terra, alguém se esqueceu de desligar um robô do lixo, para sempre condenado a executar a tarefa para que foi programado: compactar e empilhar metodicamente as sobras da Humanidade. Stanton sabia que não aguentaria um blockbuster de animação com silent gags, num registo conceptual, às vezes poético, e um sub-texto adulto, do princípio ao fim. Na segunda parte do filme é notória a cedência ao género familiar. Já há cores, alguns diálogos e figuras humanas. Bem... mais ou menos humanas. As pessoas do futuro são seres de duplo queixo e postura horizontal (a inércia de séculos alterou-lhes a estrutura óssea), que chupam por uma palhinha e vivem numa espécie de resort espacial.

Mais humano parece ser o robot do lixo, mesmo não tendo músculos faciais nem boca, ele consegue fazer um olhar tão ternurento como o do gato das botas, em Shrek. É um respigador, colecciona coisas, bolhinhas de plástico para rebentar, um cubo de Rubick, tem uma barata de estimação. E gosta de rever, numa arqueológica casset VHS, o musical Hello, Dolly. Até que um dia, ele que é ferrujento, sujo e tem um design ultrapassado conhece uma robotinha branca, sexy, lustrosa, levitadora e com ar de i-pod. E mostra que no fundo do peito de um robô do lixo também bate um coração.

4 comentários:

filipa disse...

Muitos parabéns pelo seu trabalho! Tive a dar uma leitura geral nas suas críticas e estão fantásticas.
Acha que me podia contactar via e-mail para eu esclarecer umas dúvidas acerca desta minha paixão pela crítica de cinema? Aguardo uma resposta da sua parte.
Obrigada!
filipaaaa@gmail.com

MC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MC disse...

Este filme, para além de nos divertir, faz-nos pensar no futuro: catastrofes ecológicas, seres humanos cada vez mais sedentários, etc. E na vida real não há Wall-E's...

Aproveito para divulgar uma sondagem que estou a fazer no meu blogue com o objectivo de eleger os melhores actores e actrizes da actualidade. Podem votar em:

http://www.cinema-e-futebol.blogspot.com/

Parabéns pelo vosso trabalho e obrigado!!!

O Homem que Sabia Demasiado disse...

E não esqueçamos o extraordinário trabalho com o som feito por Ben Burtt - http://ohomemquesabiademasiado.blogspot.com/2008/07/o-som-de-wall-e.html

Saudações cinéfilas
VA