A Vida Pela Frente, de Paolo Virzì

A Festa do Cinema Italiano vem comprovar, em definitivo, que há vida para além de Moretti e Benigni. Há vida e ela está pela frente. Muito à frente. O filme de Paolo Virzì é singularmente inteligente e malogradamente actual. Mau grado não para o filme e o seus autores (Virzì partilha o argumento com Francesco Bruni), que conseguiram captar a espuma destes dias. Mau grado para quem está a borbulhar nessa espuma, que se ergue, agiganta, promete e impressiona, mas que se liquidifica, pouco depois, por entre os dedos, numa inconsistência sem remédio. É um filme de 2008, mas não é um filme do ano passado, nem de ontem, nem da véspera. É um filme de hoje, de agora, desta hora, deste minuto em que se publica o post.
Em A Vida Pela Frente tudo nos é dolorosamente reconhecível. Por isso é uma comédia, com um toque de melancolia. «É a vida», diz-se com um encolher de ombros, não há nada a fazer, ainda que a alguns a tenham toda pela frente. O realizador explica que usaram o método da comédia à italiana, que historicamente lhes pertence. Mas depois apercebeu-se de que essa herança já não era suficiente para contar o nosso tempo. «Era precisa uma mistura de ternura e ferocidade, entre compaixão e perfídia...»
É a história de uma recém-licenciada em Filosofia que tem a vida toda pela frente. Faz um dissertação de tese brilhante, não por acaso, sobre Heidegger, justamente o filósofo existencialista de O Ser e o Tempo, que fala do homem que tem consciência de estar a caminhar para a morte e por isso a sua relação com mundo é de angústia, preocupação, complexo de culpa.... Durante o exame oral, uns provectos docentes - assim do género dos que examinaram Vasco Santana no célebre «externocleidomastoideu»... – sussurram os seus problemas urológicos. Como cristão às feras, esta recém-licenciado è lançada ao mercado de trabalho. Tenta uma editora, um jornal onde um seu colega, também filósofo, faz sucesso a escrever artigos sobre os destinos de férias do jet set...
Até que vai parar a um call center. E entra numa espécie de universo paralelo. Naquele outro mundo começa-se todas as jornadas de trabalho com uma espécie de sessão de aeróbica matinal, de estímulo e motivação laboral. Há música, uma coreografia colectiva, aplausos e prémios para as telefonistas que conseguiram melhores resultados, uma espécie de catarse e de auto-punição para os funcionários menos produtivos... E claro, vale tudo. Tanto enganar donas de casa incautas até que acedam a uma demonstração em suas casas de um inútil e absurdo electrodoméstico. Como controlar os minutos dos funcionários para irem à casa de banho, ou despedi-los num ápice, discretamente – e enquanto continua a festa, a música e a coreografia da felicidade. Tão precária quanto os trabalhadores que a protagonizam.
Também há um sindicalista defensor dos precários, mas que acaba por se sedear num outro planeta paralelo, habitado por outra retórica – mas que não deixa de ser retórica.
De repente, Marta, esta filósofa em potência, especialista em Heidegger vê-se dentro deste outro mundo, com as suas regras, as suas cosmogonias, as suas maneiras de sobreviver. Aquela empresa é um misto de seita, de big brother televisivo e de entretenimento para veraneantes de Club Med. Tudo isto num tom muito berlusconiano. Aliás quase que se pressente o sorriso branco fluorescente de Berlusconi a pairar por ali, como o gato invisível da Alice (a das Maravilhas).
Marta acaba por deixar-se contagiar pela alegre inconsistência das suas colegas. Tem jeito para dar a volta àquela tele-clientela. É a funcionária da semana. É aplaudida na cerimónia da praxe, notada pelas chefias, até recebe um brinde... Mas é só espuma, claro. E a espuma, já sabemos, não tem vida pela frente. Não tem futuro.
Mas o final do filme tem um réstia de esperança, um pequeno sopro de vida pela frente. E acaba com o Que Sera, a música que Doris Day cantava, naquela recepção sinistra, em casa dos raptores, no filme de Hitchcock, O Homem Que Sabia Demais. Em que ela vai cantando ao piano, mais e mais alto, (lembram-se?), até ser ouvida pelo filho raptado, preso no andar de cima. E caímos outra vez num banho de espuma. Ou talvez não.
When I was just a little girl
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.
Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.








1 comentários:
Fiquei com uma grande curiosidade em ver este filme depois de ter lido o texto que escrveu sobre este filme. é pena não passarem estes filmes mais vezes em sala
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