domingo, 5 de abril de 2009

A precariedade é um posto

A Vida Pela Frente, de Paolo Virzì





A Festa do Cinema Italiano vem comprovar, em definitivo, que há vida para além de Moretti e Benigni. Há vida e ela está pela frente. Muito à frente. O filme de Paolo Virzì é singularmente inteligente e malogradamente actual. Mau grado não para o filme e o seus autores (Virzì partilha o argumento com Francesco Bruni), que conseguiram captar a espuma destes dias. Mau grado para quem está a borbulhar nessa espuma, que se ergue, agiganta, promete e impressiona, mas que se liquidifica, pouco depois, por entre os dedos, numa inconsistência sem remédio. É um filme de 2008, mas não é um filme do ano passado, nem de ontem, nem da véspera. É um filme de hoje, de agora, desta hora, deste minuto em que se publica o post.

Em A Vida Pela Frente tudo nos é dolorosamente reconhecível. Por isso é uma comédia, com um toque de melancolia. «É a vida», diz-se com um encolher de ombros, não há nada a fazer, ainda que a alguns a tenham toda pela frente. O realizador explica que usaram o método da comédia à italiana, que historicamente lhes pertence. Mas depois apercebeu-se de que essa herança já não era suficiente para contar o nosso tempo. «Era precisa uma mistura de ternura e ferocidade, entre compaixão e perfídia...»

É a história de uma recém-licenciada em Filosofia que tem a vida toda pela frente. Faz um dissertação de tese brilhante, não por acaso, sobre Heidegger, justamente o filósofo existencialista de O Ser e o Tempo, que fala do homem que tem consciência de estar a caminhar para a morte e por isso a sua relação com mundo é de angústia, preocupação, complexo de culpa.... Durante o exame oral, uns provectos docentes - assim do género dos que examinaram Vasco Santana no célebre «externocleidomastoideu»... – sussurram os seus problemas urológicos. Como cristão às feras, esta recém-licenciado è lançada ao mercado de trabalho. Tenta uma editora, um jornal onde um seu colega, também filósofo, faz sucesso a escrever artigos sobre os destinos de férias do jet set...

Até que vai parar a um call center. E entra numa espécie de universo paralelo. Naquele outro mundo começa-se todas as jornadas de trabalho com uma espécie de sessão de aeróbica matinal, de estímulo e motivação laboral. Há música, uma coreografia colectiva, aplausos e prémios para as telefonistas que conseguiram melhores resultados, uma espécie de catarse e de auto-punição para os funcionários menos produtivos... E claro, vale tudo. Tanto enganar donas de casa incautas até que acedam a uma demonstração em suas casas de um inútil e absurdo electrodoméstico. Como controlar os minutos dos funcionários para irem à casa de banho, ou despedi-los num ápice, discretamente – e enquanto continua a festa, a música e a coreografia da felicidade. Tão precária quanto os trabalhadores que a protagonizam.

Também há um sindicalista defensor dos precários, mas que acaba por se sedear num outro planeta paralelo, habitado por outra retórica – mas que não deixa de ser retórica.

De repente, Marta, esta filósofa em potência, especialista em Heidegger vê-se dentro deste outro mundo, com as suas regras, as suas cosmogonias, as suas maneiras de sobreviver. Aquela empresa é um misto de seita, de big brother televisivo e de entretenimento para veraneantes de Club Med. Tudo isto num tom muito berlusconiano. Aliás quase que se pressente o sorriso branco fluorescente de Berlusconi a pairar por ali, como o gato invisível da Alice (a das Maravilhas).

Marta acaba por deixar-se contagiar pela alegre inconsistência das suas colegas. Tem jeito para dar a volta àquela tele-clientela. É a funcionária da semana. É aplaudida na cerimónia da praxe, notada pelas chefias, até recebe um brinde... Mas é só espuma, claro. E a espuma, já sabemos, não tem vida pela frente. Não tem futuro.

Mas o final do filme tem um réstia de esperança, um pequeno sopro de vida pela frente. E acaba com o Que Sera, a música que Doris Day cantava, naquela recepção sinistra, em casa dos raptores, no filme de Hitchcock, O Homem Que Sabia Demais. Em que ela vai cantando ao piano, mais e mais alto, (lembram-se?), até ser ouvida pelo filho raptado, preso no andar de cima. E caímos outra vez num banho de espuma. Ou talvez não.

When I was just a little girl
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.

Que Sera, Sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que Sera, Sera
What will be, will be.

2 comentários:

Umberto D disse...

Fiquei com uma grande curiosidade em ver este filme depois de ter lido o texto que escrveu sobre este filme. é pena não passarem estes filmes mais vezes em sala

Daniela Sanches Tavares disse...

OLá, Gostaria muito de saber se há versão deste filme com legenda ou mesmo dublagem em português. Vocês sabem me dizer?