quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Nocturno indiano

Slumdog Millionaire, de Danny Boyle



Uma tragicomédia anglo-indiana, onde sorriso e sordidez se aliam. Slumdog Millionaire: a revelação maior destes Óscares




Nesta coisa das artes, há um assunto que estará sempre em cima da mesa dos séculos. E não há perigo de arrefecer, nem de abolorecer, nem de perder o paladar. Aí está, sempre pronto a servir, sempre fumegante, sempre saboroso: deve ou não dar-se às massas (as outras, as não comestíveis) aquilo que as massas querem? Já se interrogava sobre isto Aristóteles na Poética, ou Cervantes, no Dom Quixote... Alguém, possuidor, decerto, de uma enorme sabedoria, dizia, sobre este escorregadio equilíbrio no campo cinematográfico: «Dá às audiências o que elas querem mas não exactamente da forma que elas esperam». Quem quer ser Bilionário? (Slumdog Millionaire), do britânico Danny Boyle, rodado na Índia, (estreia-se quinta, dia 5) cumpre este preceito. Por isso é um dos filmes mais generosos do mundo. Dá, oferece, não exige troco, e ainda deixa gorjeta. Queremos um final feliz? Slumdog entrega-no-lo de bandeja... Queremos sentir-nos culpados pela pobreza infra-humana que corrompe as economias emergentes do século XXI? Sai já a seguir... Queremos um filme com uma montagem incrivelmente hiperactiva (de Chris Dickens), com uma música contagiante (de A.R. Rahman), e um argumento magnificamente costurado (de Simon Beaufoy), que nunca nos faça quebrar o eye contact com a tela, do princípio ao fim? É para já... Queremos o reconhecimento de um concurso à escala global, como o Quem Quer Ser Milionário que possui os mesmos apresentadores sarcásticos e paternalistas e até o mesmo gingle, aqui, na China ou na Índia? Aí vai... Queremos um filme que assim que ameaça seguir em frente para o precipício do sentimentalismo, do kitsh ou mesmo do sensacionalismo, faz uma súbita guinada noutra direcção? Slumdog é o vosso prato...

A lei do acaso
Considerado o favorito para a corrida aos Óscares (10 nomeações), e vencedor de todos os palmarés que antecedem a cerimónia – desde os globos de Ouro ao prémios das associações de críticos, produtores e realizadores -, que costumam servir de oráculo das intenções da academia, Slumdog Millionaire é o tipo de filme que costuma irritar imenso os críticos europeus. Ao mesmo tempo que fascina os críticos americanos e os públicos de ambos os continentes. No fundo, como aconteceu com O Carteiro de Pablo Neruda ou com Babel que permaneceram meses a fio em cartaz... Para já, aparece em Portugal com um lastro de polémica, o que é sempre bom para o currículo de um obra. Na índia, manifestaram-se os pobres (estranha confraria), com cartazes que diziam «não somos rafeiros» (slumdog = rafeiro). E as estrelas de Bollywood que se sentiram caricaturadas: «O filme faz da Índia um país sujo do baixo ventre do mundo».

Faz mesmo. A começar pela cena inicial em que a polícia tortura com electro-choques um concorrente semi-analfabeto, ex-menino de rua, por suspeita de fraude no concurso Quem Quer Ser Milionário. Perder os sentidos, tudo bem, desde que não deixe marcas, por causa da amnistia internacional. A partir daí Jamal Malick, o rapaz de 18 anos, que serve chá num Call Center de Bombaim, tem de justificar como acertou em cada um das perguntas do concurso, através episódios trágico-cómicos da sua vida, «bizarramente plausíveis», numa sucessão alucinante de flash-backs, num convulsivo encadeado de set up e pay off, mas pela ordem inversa. Ele sabe que Benjamim Franklin figura em notas de 100 dólares mas já não faz ideia de que é Gandhi que habita nas de rupias.

Falou-se em «pornografia da pobreza», e não é difícil acreditar que Danny Boyle (Transpoiting) seja o tipo de realizador que sacrifica tudo por um efeito. Do doloroso fervilhar das favelas, até ao boom building de Bombaim... Das vidas de crianças que não valem um vintém (nem uma rupia), às estrelas de Bollywood que descem dos céus de helicóptero como divindades, para dar autógrafos ao povo coberto de excrementos... Da Índia como uma Londres Dickensiana, em que os miúdos são arregimentados e mutilados para mendigar, à Índia do Taj-mahal que parece um motel... A verdade é que , apesar da nossa estupefacta atracção e de alguns golpes baixos, este é um filme extraordinário. E pelo menos, nesta manipulação hábil dos clichés, Boyle faz como Tarantino: bebe directamente da fonte. Não da água engarrafada.

1 comentário:

name disse...

tenho estado à espera da sua leitura de (na verdade, escrita sobre) "o leitor" mas até agora nada...
a glória do vulgar