quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O selvagem mora ao lado



O Lado Selvagem, de Sean Penn






Se o verídico Christopher McCandless era um filho de família abastada da Costa Leste dos EUA, que um belo dia resolveu renunciar à civilização para ingressar sozinho no Alasca, devia saber que o difícil não é «entrar no selvagem», isso toda a gente consegue: o difícil é sair dele.
Percebe-se que Sean Penn tenha escolhido para o seu quarto filme a história real desta espécie de Robinson Crusoé voluntário, sem naufrágio nem sexta-feira. A história (que até deu um best-seller, escrito pelo jornalista Jon Krakauer) tem inegáveis potencialidades cinematográficas: um tipo dos anos 90, recém-licenciado, que doa as suas poupanças de 24 mil dólares a uma ONG, queima todo seu dinheiro e abandona o american way of life para se dedicar à árdua tarefa da vagabundagem. E que, ainda por cima, lê Jack London, admira Tolstoi e cita Thoreau. Parece, de facto, interessante. Dá para fazer brilharetes na fotografia, exibir paisagens estonteantes, construir uma espécie de eco-on the road (que até podia constituir um novo género), e pelo meio, até admitíamos alguns afloramentos demagógicos das teorias do bom selvagem ou da lenga-lenga da sociedade corrompida versus a purificação da natureza, com algumas considerações laterais sobre o verdadeiro sentido da vida, e por aí fora…
O problema é que este navegador solitário (Emile Hirsch) não tem nem terra à vista nem tábua onde se agarrar. E não há lirismo ou idealismo que o salvem. Nem a ele nem às duas horas e meia de filme. Donde vem e para onde quer ir esta personagem nós percebemos. Queria ser um vagabundo, como London. Um eremita como Thoreau. Em outsider da sociedade aristocrata, como, mais tarde, Tolstoi se tornou. Mas isto basta para conquistar a benevolente identificação do espectador? A vida não vale a pena se não for sozinho (sem meios, sem comida, sem recursos nem condições), para o Alasca, em pleno Inverno…Mas este é um lema de vida ou de morte? É um projecto de vida ou um suicídio lento? Acabou morto, claro, de inanição. Ou terá sido de pura estupidez?
Embora em O Lado Selvagem também haja um urso, aqui nem se vislumbra o lado patético, a ironia do destino e da tragédia, de outro fanático da natureza e do isolamento como no documentário Grizzly Man, em que o activista pela vida selvagem Timothy Treadwell, acaba devorado pelo objecto da sua devoção: os ursos grizzly, também no Alasca. Chris, que se rebaptizou como o «super-vagabundo» não gosta de dinheiro porque torna as pessoas cautelosas, os pais são uns chatos, discutem imenso, oferecem-lhe carros novos quando ele nem pediu, ainda por cima, o pai (ó sacrilégio) até tinha tido um casamento anterior. Então o que lhe resta fazer? Partir para o Alasca - como o Calvin de Bill Waterson está sempre a ameaçar fazer… Pelo meio da viagem ainda temos de conhecer (sempre em alegre confraternização) uma série de personagens benignas sem qualquer ambivalência, que vivem tranquilos, sem sombra de infelicidade. Porquê? Porque também renunciaram à civilização e ao convívio social. Então, ou são um simpático casal de hippies de meia idade ou um simpático casal de nórdicos malucos… Também há um simpático fazendeiro. Uma simpática teenager. E um simpático velhote, a quem Chris quase mata de ataque cardíaco quando o força a subir uma montanha para ver a vista…
Nada simpática, mas mesmo nada, é a forma como Sean Penn torna este filme num catálogo de técnicas e recursos cinematográficos: desde a impossível voz off, à redundante e demagógica banda sonora (Pearl Jam), às insuportáveis câmaras lentas (ou vemos Chris a «dançar» com renas ou Chris a dançar com cavalos selvagens) e - até – ao ecrã fragmentado… Já sem falar nas inúmeras cenas em que assistimos a Chris a fruir a natureza: de braços abertos e uma câmara em redor. Mas desde que vimos a noviça Julie Andrews a fazer o mesmo nos topos austríacos, isso já só serve para fazer despertar o lado narcoléptico que existe em todos nós.

4 comentários:

O Homem que Sabia Demasiado disse...

Sean Penn sabe o que faz. Bom texto.
Vou continuar a ler.
Saudações cinéfilas,
VA

Runcolho disse...

Ainda não vi o filme, mas estou com certa curiosidade.

Só para apontar um reparo:
A banda sonora não é dos Pearl Jam, é um trabalho a solo do Eddie Vedder, este sim, vocalista dos Pearl Jam.

:)

Continuação de bom blog.

Pedro Lavado disse...

Ana Margarida de Carvalho, com o devido respeito a senhora percebe tanto de cinema como eu de lagares de azeite.. e olhe que eu tenho vários lagares. Dizer mal de um filme destes, só pode tratar de um critico completamente qualificado e de extrema seriedade. A banda sonora também naõ presta para nada, acho que é um eddie qualquer coisa, é um rapaz novo, que ainda ainda pode vir a ser alguém.
Ana Margarida de Carvalho, está a dificultar ainda mais o visionamento deste filme, pois acho muito bem, acho que ainda devia dizer pior, tipo o titanic no alasca.
Já que neste caso as distribuidoras lusomundo e castello lopes não possuem o filme, o Lado Selvagem (que eu saiba). Os filmes dificeis de ver são os melhores, mas neste caso é dificil de encontrar numa sala perto de nós.
Ah e já agora, 5 estrelas para o Hostel, acho que deviam ter sido seis ou sete, ou nove. A visão online está muito bem servida.

Sara Matos disse...

De facto, o filme parece surreal. Um jovem que abandona tudo e todos porque acha que consegue viver apenas e só com a Natureza. Sem ninguém (apenas animais e plantas). Cruza-se com pessoas bondosas que o ajudam sempre.
Sim, escreveu cedo o seu próprio fim. E orgulhar-se de ser o "super-vagabundo" não joga muito a seu favor, não faz com que seja levado muito a sério.
Mas, o filme é baseado em factos reais. Aquilo aconteceu (ou mais ou menos aquilo). é exagerado? pode ser, mas faz-nos, de alguma forma, pensar no que nos rodeia. Sim, a crítica à sociedade de consumo não é nada novo mas, não pode ser mais enfatizada?
Gostei do filme