quinta-feira, 24 de setembro de 2009

ETs: Vão Para Casa!

District 9, de Neil Blomkamp




Ou pensando melhor: deixem-se estar mais um bocadinho. District 9, o filme mais OVNI, de entre os filmes sobre OVNIs

District 9 não é um filme futurista. Apesar de ter naves espaciais, seres de outros planetas com imensos tentáculos, pinças e antenas, ou de haver dispositivos activados através de hologramas e de fluidos alienígenas. A primeira e tão inventiva longa do sul-africano, Neil Blomkamp, residente no Canadá, é um filme profundamente actualista. Só dos tempos que correm podia sair algo assim. Durante décadas (sobretudo durante as de 50 a 70, os anos loucos das corridas espaciais), o cinema passou-nos a versão dos extra-terrestres indesejáveis – ou porque queriam colonizar o planeta e submeter a humanidade, ou simplesmente exterminá-la porque sim, ou então possuíam a hábil manigância de se infiltrar sob as nossas peles, como se nós fossemos invólucros recicláveis. É claro que cada alien invasor trazia em apêndice a metáfora dos terríveis (embora menos tentaculares) russos, e finda a guerra fria, chegaram os ETs de Spielberg, muito mais amistosos e benévolos. Agora, em pleno século XXI, aterra-nos este filme (estreia-se hoje, 24), cheio de aliens lá dentro. São refugiados, não invasores. Ou seja: outra vez indesejados.

O filme utiliza um expediente narrativo muito inteligente, e que resolve, de vez, a questão da incredulidade. Todo ele é construído em registo de falso documentário televisivo, com câmaras à mão, imagens de vídeo-vigilância, com planos esquinados, depoimentos e entrevistas de rua reais, com muito grão e uma reprodução do look low budget (o que até aconteceu, tendo e, conta os padrões do super-produtor Peter Jackson). O que não é propriamente original. Basta pensarmos que foi recorrendo a um falso documentário que Michael Curtiz convenceu toda a gente de que Casablanca era uma plataforma giratória de espiões e foragidos da Segunda Guerra...

Mal-vindos
E então temos uma nave gigantesca que, um belo dia, aparece a pairar sobres os céus de Joanesburgo. Atenção, que não é em Manhattan ou Chicago, como costuma acontecer nos filmes. Estes aliens escolhem fazer a sua aparição na África do Sul. Vêm subnutridos e desgovernados, e o Estado cheio de boas intenções, realoja-os em campos de refugiados. Só que os anos passam, eles reproduzem-se, já são mais de um milhão, nunca mais se vão embora, e ainda por cima têm um aspecto algo viscoso (uma mistura entre os homens-alforreca dos Piratas das Caraíbas e a silhueta angulosa das criaturas do Alien) e o desagradável hábito de chafurdar nas lixeiras com as suas tenazes. O ex-país do Apartheid cobre-se outra vez de placas de acesso interdito - a única diferença é que já não dizem «whites only», mas «human only». O campo torna-se guetto, e os ETs já não são bichos raros, mas uma praga. Aliás, a espécie residente trata-os depreciativamente pelo nome de uma espécie infestante: «camarões» (gafanhotos, na tradução portuguesa).

Há uma multinacional de armamento privada que faz raides de helicópteros e blindados neste imensa favela,o distrito, entretanto, dominado por gangs de nigerianos que controlam o mercado negro e gostam de comer braços de alien. O filme entra numa estética muito hiperactiva e energética ao estilo Slumdog Millionaire (a última tendência de Hollywood, embora aqui num registo muito menos sofisticado). Aparece em cena uma fantástica personagem, Wikus (o estreante Sharito Copley), operacional recém-promovido da empresa que toma a cargo o realojamento dos aliens para um campo mais afastado de Joanesburgo.

Todo o desconcerto e originalidade da premissa inicial e da provocação do sub-texto na primeira parte do filme descarrila lamentavelmente na segunda. Resta-nos seguir na trepidação habitual de tiros, explosões e efeitos especiais, no percurso previsível, de tão palmilhado pelas produções americanas. De cenas bastantes infantilizantes, à Tranformers, deixamo-nos cair algures, entre a Mosca de Cronenberg (também a Vicus começam a cair as unhas, os dentes e a crescer-lhe uma tenaz no lugar do braço), ou, num outro registo, a Metamorfose de Kafka e Focus, de Arthur Miller, quando o homem que passa a usar óculos é tomado pela comunidade por um judeu. Ele já é «um deles», e sente-o na pele, caçado pelas entidades oficiais e cobiçado pelas não oficiais (os nigerianos insistem neste apetite de devorar-lhe o braço mutante). Um dos elementos mais bem conseguidos é a linguagem falada pelos aliens, um misto de interferência de rádio com scratch no vinil. Fica por explicar porque é que eles são vorazes por comida enlatada para felinos, e não preferem os gatos- eles mesmo- como outro ET famoso.

2 comentários:

Pedro disse...

Bem, custa, comprei hoje a visao e em dois sitios diferentes encontrei o erro, e agora de novo.

o nome do senhoe e SharLto, com L e nao "Sharito".

Ana Margarida de Carvalho disse...

Tem razão: é Sharlto Copley. Talvez venhamos a ouvir falar dele mais vezes.
amc