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terça-feira, 29 de setembro de 2009

De volta à Arena

Reportagem em Marvila

Arena, de João Salaviza, a curta portuguesa que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, chega agora às salas, na primeira parte de Woodstock, de Ang Lee. Fomos à Quinta da Flamenga, bairro social onde o filme decorre, e assistiu ao público que assistia a uma ante-estreia muito especial. Saiba a história deste filme







No Rio de Janeiro há excursões que se organizam a favelas. O turista de gostos exóticos enfia-se numa carripana e deslumbra-se com as vistas, em perfeita segurança, porque a organização assim o diz. Comenta «How typical» e logo passa ao próximo spot, talvez o Corcovado, talvez o Pão de Açúcar. Também por umas horas o bairro da Flamenga se enche de ‘turistas atrasados para o Verão’, como alguém lhes chamou, que aproveitaram a oportunidade, não só de ver o filme, como de conhecer o décor. Alguns ainda para fazer campanha, política ou de outro género. Tudo ali se junta e se confunde, perante um público, apesar de tudo, maioritariamente de moradores da Flamenga, ao qual o realizador João Salaviza faz questão de dedicar a exibição.

Público este que se divide, prudentemente, entre a tolerância e a desconfiança, não vá o diabo tecê-las. Já sabem que um dia não são dias. E que no dia seguinte ficará tudo na mesma e nenhum dos visitantes voltará a beber um copo na Pastelaria da Bela Vista, apesar da cerveja ser bastante em conta: 80 cêntimos a imperial. Mas por momentos, ainda que por breves momentos, a coisa parece bonita. Aquele cocktail social, insolúvel, por mais que se mexa, toma ares de harmonioso, faz-nos acreditar, por segundos, num mundo melhor. Ou talvez não seja para tanto. Apenas saber que o mundo do fim do mundo também é mundo. E que, visto ao longe, toda a gente é apenas gente. E ao perto também.

O pretexto para a festa são os 15 minutos do filme de João Salaviza, Arena, o tal que, feito inédito para o cinema português, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, cidade balnear coquete, tão distante da Bela Vista como Nova Iorque de Bagdad. O filme passa-se ali mesmo, no bairro, mais concretamente na malha H, que não são mais do que dois blocos de apartamentos unidos por três pares de passadiços, trancados sobre si próprios.

Em baixo, onde agora está montada a tela, e se distribuem cadeiras (400 no total) em tempos passaram carros, mas o ambiente era tão ruim, que resolveram cortar o trânsito. Ficou assim a malha H entregue a si própria, em jeito de gueto, lá para os lados de Marvila, na zona oriental de Lisboa. Ainda agora, à noite. a coisa torna-se difícil, e os moradores têm medo de outros moradores, e preferem refugiar-se das ruas. «Ninguém faz mal a ninguém, mas as pessoas têm medo», diz-nos o senhor Carlos, presidente da associação de Moradores, depois de explicar, ao telemóvel, o caminho a Helena Roseta.

Hoje é uma noite diferente e ninguém diria que esses problemas existem. Não fosse o vento frio que galopa pelo corredor entre os passadiços e se entranha nos ossos, seria uma noite perfeita para cinema ao ar livre. A rua até é ligeiramente inclinada, dando a ideia de anfiteatro. Na antiga Roma, era nos anfiteatros que se digladiavam os homens e os leões. Mas o chão que pisamos não se parece com uma arena. Tal como no filme, a arena fica lá para cima, nas bancadas, fechadas e misteriosas que escondem mundos e histórias. Olhando bem, tudo aquilo lembra um estabelecimento prisional, a prisão-hospital de Caxias ou coisa assim, com passadiços entre celas e até torres de vigia. É incrível que morem ali pessoas livres, tão reféns de si próprias. Que arquitecto se terá lembrado de tal desenho? As intenções são sempre as melhores.

Foi esse aspecto de cárcere que levou João Salaviza a escolher a malha H como cenário. O protagonista está em prisão domiciliária, com pulseira electrónica no pé e sai para perseguir uns gandulos, que não são mais do que miúdos. O bairro é a própria prisão. A sociedade prende-os fora da vista. Já estiveram pior, é certo. Os que ali moram foram realojados do bairro do Relógio. Ao contrário do que é típico em alguns guetos suburbanos, como a Cova da Moura, a maioria da população é portuguesa. Na Flamenga habitam cerca de 2500 pessoas, mil só naquela malha H.

A Flamenga não se terá propriamente vestido a rigor para a ante-estreia do filme, e consequente visita de políticos, artistas, jornalistas e televisão. Mas aperaltou-se à sua maneira. Há uma tranquilidade aparente, enquanto a festa se monta. Está a passar futebol na TV e diz o bom senso que não vale a pena escolher a bola como adversário. Um repórter de imagem hesita em abandonar o tripé enquanto sobe a escada, para filmar o local. A jornalista diz que ninguém rouba. E ninguém rouba mesmo.

Aos poucos as janelas vão ficando povoadas: é privilégio raro fazer da varanda de sua própria casa um segundo balcão. Outros descem. E à hora do arranque o pátio da Flamenga está a abarrotar. Antes, porém, uma primeira parte peculiar, um grupo de crianças dançarinas, apresenta o seu número no palco.

A curiosidade é grande. Durante uma temporada a equipa de João Salaviza invadiu pacificamente o bairro, com o seu aparato técnico e humano. Serviram-se de uma casa vazia no segundo andar, que habitaram diariamente. Primeiro, sem câmaras, para ganhar a confiança da população. «As pessoas desconfiaram porque estão habituadas a ser notícia apenas pelos piores motivos». Desta vez o motivo é grande. Dos maiores: uma obra artística.

Essa convivência com a população é notável no à-vontade de todos. Principalmente dos actores. Carloto perde-se entre a gente, como se estivesse em casa. E o jovem Rodrigo Madeira, que se estreia aqui, circula com natural destreza, é morador de um bairro vizinho, e joga na equipa de futebol que é treinada pelo sr. Carlos. A história do filme poderia ter acontecido lá para as tuas bandas, Rodrigo? «isto e muito pior». O seu maior sonho é prosseguir a carreira de actor. Mas não é fácil.

A emoção vem ao de cima, enquanto o projector aquece: «Prefiro muito mais estar aqui do que em Cannes. É muito mais genuíno» Diz Carloto Cotta, o actor que viajou com Salaviza para ir buscar a Palma d’Ouro. E acrescenta: «Isto de actuar é como jogar à bola, depois de fazer o clique tudo corre bem». E o seu clique mereceu os mais variados elogios. Só que, infelizmente, de momento não tem nenhum filme em rodagem.

Não é a primeira vez que a Flamenga é cenário de filme. Por ali passou o Crime do Padre Amaro e vários spots publicitários. «Somos Hollywood de Marvila», diz, brincando, o sr. Carlos, com o seu equipamento vermelho de futebolista. Não esconde uma felicidade imensa por ter tantas visitas no bairro e desdobra-se em conversas e entrevistas, sempre diplomata, sempre bem-falante.

Muitos outros mantêm uma distância prudente. Mas chegada a hora do filme, ninguém, mil olhos espreitam por todas as janelas, portas, passadiços. Um clima que lembra um neo-realismo à italiana. Ali cabe mais gente do que no São Jorge.

À medida que a fita roda, avolumam-se os comentários: isto é aqui, isto é acolá, isto já não sei onde é. Não sabem porque, uma parte do filme foi filmada numa fábrica abandonada lá para a Portela de Sacavém, onde o JL acompanhou o João, numa sessão fotográfica. Ao ar livre, o cinema é à antiga, com comentários, assobios, gargalhadas. Tudo no extremo da vivência genuína. As pessoas gostam, porque vêem-se a si próprias, garante o sr. Carlos. Uma senhora, gorda, de avental, com ar de mãe de todos, comenta: «Ficam a pensar que aqui no bairro são todos gatunos»… talvez não fiquem, talvez não fiquem. Uma outra mulher reclama com Carloto, dando-lhe palmadas no braço, «então filmaram a minha mãe!?». O actor não tem culpa.

E o filme acaba, pouco depois de começar, afinal é uma curta-metragem, de apenas 15 minutos. As pessoas verificam, desoladas, já acabou? Tanto aparato para tão curto. Curto mas intenso, como o café que bebemos. Todos sabem que, rapidamente, tudo volta ao normal. Os políticos vão para a campanha, os jornalistas para as redacções e a Flamenga volta a ser a Flamenga de sempre, entalada entre o Parque da Bela Vista e o Feira Nova. «Estamos a organizarmo-nos para ter actividades de três em três meses», garante o Sr. Carlos. Quanto ao filme: «Eu tenho dito aos jornalistas que as pessoas gostaram». E ninguém tem dúvida que poderia ter acontecido ali, esta ou outra história.

O cinema foi até à Flamenga, com a pompa de visita de estado. Agora é a Flamenga que vai aos cinemas, com a exibição de Arena, na primeira parte de Woodstock, de Ang Lee, em 16 salas pelo país. No bairro, ouve-se o reboliço, os comentários animados e ainda dá tempo para mais uma cerveja. O assistente da produtora apressa-se a guardar a cópia do filme, enquanto outros vão desmontando as telas. No estacionamento, os carros arrancam em direcção a pontos mais visíveis da cidade. Arena despede-se da Flamenga. Na esperança de uma segunda sessão.


LER ESPECIAL ARENA NO FINAL CUT

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Arena estreia em Setembro

Arena, o filme de João Salaviza, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, a que o Final Cut dedicou um extenso dossiê, vai estrear-se em sala, já no próximo dia 17 de Setembro. A curta-metragem passará antes de Taking Woodstock, de Ang Lee, filme que, de resto, também esteve no festival francês. Entretanto, Arena tem feito um extenso percurso por festivais internacionais de cinema. De momento, está em concurso no de São Paulo, que decorre até dia 28.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ciclone: 7 curtas portuguesas

Numa altura em que João Salaviza ganhou a primeira Palma de Ouro do cinema português, um ciclone com sete outras curtas portuguesas recentes, com destaque internacional

Estória do Gato e da Lua, de Pedro Serrazina (1995)



Antes havia Abi Feijó e pouco mais. Até que apareceu um filme extraordinário que colocou a animação portuguesa no circuito mundial. Estória do Gato e da Lua ainda hoje é o cartão de apresentação de Pedro Serrazina. Venceu prémios em festivais. E abriu-lhe enormes portas. Hoje vive em Londres e dá aulas de cinema. Curiosamente, nunca voltou a conseguir fazer um filme tão bem conseguido como o da sua estreia. Mas, na animação, mais do que em qualquer outro género cinematográfico, é preciso dar tempo ao tempo.

Parabéns, de João Pedro Rodrigues (1997)


João Pedro Rodrigues, por si só, é responsável por uma quota significativa da produção de cinema gay e lésbico no nosso país. A sua primeira curta-metragem, Parabéns, abriu-lhe o caminho para uma cinematografia original no nossa panorama, onde se encontram as longas O Fantasma e Odete. Parabéns teve uma menção especial no Festival de Veneza e circulou por muitos festivais. Em 2008 regressou ao formato curto, com China China, uma inesperada variação temática, num filme notável sobre imigrantes chineses em Portugal.

A Suspeita, de José Miguel Ribeiro (1999)



Não ganhou nenhuma Palma de Ouro, mas foi o primeiro filme português a receber o Cartoon d’Or, nada mais nada menos do que o mais importante prémio para cinema de animação na Europa. Não foi nomeado para os Óscares por uma unha negra (calhou nesse ano as nomeações para a categoria passarem de cinco a três) e esteve presente em mais de duas centenas de festivais. É uma animação em volumes, passada num comboio, com uma história bem portuguesa, com personagens fortes e o suspense de um policial. Para todas as idades. Foi um sucesso tal que teve direito a uma exposição no Museu da Marioneta. José Miguel Ribeiro tornou-se um dos grandes nomes da animação europeia, com filmes como Passeio de Domingo (que passou no Indie Lisboa deste ano) ou a série As Coisas Lá de Casa.

Inventário de Natal, de Miguel Gomes (2000)


É um dos mais importantes nomes da nova geração de cineastas. Antes do enorme sucesso de Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes fez um fabuloso percurso pelas curtas metragens. Inventário de Natal, a sua segunda película, é, provavelmente, onde mostra de forma mais contundente o seu talento criativo. Entre outros traços, a sua cinematografia caracteriza-se por uma intensa ligação com a música e um cuidado extremo na fotografia. A adolescência é a temática predilecta. E utiliza preferencialmente não actores. Inventário de Natal circulou pelos principais festivais internacionais, assim como outros curtas-metragens, como Entretanto ou Cântico das Criaturas.

Corpo e Meio, de Sandro Aguilar (2001)

Mais do que qualquer outro, Sandro Aguilar é o ex-libris da geração curtas. Criou logo em 1999 a produtora O Som e a Fúria, hoje dirigida em parceria com Luís Urbano, que é responsável pela produção de algumas das mais importantes curtas metragens portuguesas da última década: filmes de Miguel Gomes, João Nicolau, entre outros. Revela uma coerência extrema e uma linguagem muitíssimo original desde a sua primeira obra e tem sido repetidas vezes premiado em festivais. Corpo e Meio, realizado por encomenda de Porto, Capital Europeia da Cultura, recebeu o prémio para melhor filme europeu em Vila do Conde (o mesmo aconteceu com A Serpente). Recentemente, estreou-se em sala a sua primeira longa metragem, A Zona, onde o rigor estético e a coerência forma se mantêm imaculadas.

História Trágica com Final Feliz, de Regina Pessoa (2005)




No catálogo da Agência de Curtas-Metragens lidera na lista de participações em festivais. Ao todo 163! E com mais de uma dezena de prémios e menções honrosas em alguns dos mais importantes festivais internacionais. A realizadora, discípula de Abi Feijó, desenhou uma história simples e comovente, profundamente poética e com leitura universal. É um dos nomes a fixar na animação europeia.

Rapace, de João Nicolau (2006)




Foi o primeiro filme português a receber o prémio internacional em Vila do Conde. Uma história urbana, passada em Telheiras (Lisboa), mas, ao contrário de Arena, focando uma classe burguesa e uma juventude vazia. O filme fez uma notável digressão por festivais, ganhando prémios em Milão, Réus, Belfort e Santiago de Compostela. João Nicolau apresentou em Cannes a sua nova película, Canção de Amor e Saúde.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Condomínio Fechado

Arena, de João Salaviza




Quinze minutos de filme concedem-lhe, no mínimo, o direito de usar com toda a propriedade uma das mais famosas, esfalfadas e vilipendiadas citações da história das frases-feitas mundiais. Um minuto de fama por cada minuto de película. Dá os tais 15 de que Andy Warhol falava. Quinze minutos de filme, mais ou menos meio quilómetro de fita, e nunca o cinema português palmilhou tanto mundo, galgou tanta fronteira, como agora, que a curta-metragem de João Salaviza, Arena, (produzida pela Filmes do Tejo) conquistou a Palma de Ouro, em Cannes. Nunca antes um filme português tinha chegado tão longe. Nunca se estendera tanta passadeira vermelha por baixo de uma produção nacional. «É um bocado atordoante», confessa João, 25 anos.

Sentiu-se estrela de Hollywood, frente a um batalhão de papparazi, a metralharem com as suas máquinas fotográficas, enquanto ele e o actor Carlotto Cota faziam poses na Croisette e assumiam os «sapatos de marca a fingir», comprados no Martim Moniz. Sentiu-se medalhado olímpico, quando, ao chegar de Cannes, tinha no aeroporto à sua espera uma comitiva do ICA, uma estação de televisão, jornalistas, imensos amigos e as felicitações do Presidente da República.

No seu telemóvel vão pingando os parabéns. A campainha parece um código morse intermitente. Amigos e mais amigos. Chegam para dar um abraço, para a celebração pós-Cannes... São membros da equipa, é o actor Carlotto, é o director de fotografia, é a directora de arte, é o homem da pizza, que vem finalmente alimentar o realizador, entre duas dentadas, muitos abraços e as perguntas da VISÃO.

João Salaviza ainda não pode falar da sua obra no plural – na verdade, Arena é o seu primeiro filme. Antes disso, fizera uma curta escolar no âmbito do curso de cinema, chamada Duas Pessoas, baseada num texto de Herberto Hélder. Também ainda não pode falar propriamente em carreira, porque essa implica passado, e João ainda está a saborear o presente e o muito futuro que tem pela frente. Mas na secção de galardões do seu currículo já se vislumbra um reconhecimento em progressão geométrica. Primeiro, com a curta da faculdade ganhou o prémio Take One, em Vila do Conde, destinado à produções das escolas. Depois, já com Arena, o Prémio para a Melhor Curta Portuguesa, na última edição do Indie Lisboa. Finalmente, o bolo que esmaga toda a cereja: a Palma de Ouro, de Cannes. Por falar disso, onde ficou a Palma? João e a namorada, Maria, entreolham-se. Ficara esquecida no carro, juntamente com a cópia do filme que viajou até França. «A cópia sim, foi um esquecimento arriscado».

Já resgatado do porta-bagagem, o filme repousa agora em cima de uma cama. Não é nada leve. Nem os quinhentos metros de película, nem a responsabilidade. João sabe que não pode abusar da fragilidade de casulo que arrastam consigo estas famas instantâneas. Nunca julgou que Arena pudesse ganhar, apostou na curta neo-zelandesa ou na animação francesa. Mas a verdade é que acreditou mesmo no filme que tinha em mãos. Apesar da inicial recusa no Festival de Berlim e de não ter sido aceite na secção da Quinzena dos Realizadores, nem na semana da Crítica, não houve tempo para desalentar. Nas vésperas da exibição e ante-estreia mundial no Indie Lisboa, soube-se que tinha sido seleccionado, de entre 3600 candidatos em todo o mundo, para a competição principal de Cannes – algo só alcançado há cerca de 15 anos por uma curta de João César Monteiro.

João Salaviza orgulha-se de ter estreado o filme no Indie. Miguel Valverde, um dos três directores, também se orgulha de ter sido o primeiro a ver Arena e a ter notado nesta curta, «pela sobriedade e por estar tão bem realizada, uma certa vocação internacional». De entre as cerca de duzentas curtas que se candidatam ao Indie, sente-se, em muitas delas, que «estão feitas cá para dentro», explica. «A partir deste prémio, as expectativas são altíssimas. Eu próprio ficaria muito assustado com todo esse batalhão de emoções... Foi uma importante porta que se abriu para o cinema português e para uma nova geração que está emergente», comenta.

Suburbanalidades
Uma «lança em África», «um pequeno passo para o realizador, um grande salto para a cinematografia nacional» - dir-se-ia, se se quisesse prosseguir assim, na senda do lugar comum como se inicia este texto. Mas tal seria lastimoso para falar de um filme que, afinal, de comum tem só mesmo o lugar. Arena passa-se num desses bairros problemáticos de Lisboa, que costumam comparecer nos noticiários e nas primeiras páginas dos jornais. Que costumam ser arena de tiros e alaridos vários, para entretenimento do espectador, na bancada do telejornal.
Este é um filme substantivo. Uma narrativa sem adjectivos, advérbios e decorativismos acessórios. O próprio autor define-o, dizendo: «Não há pontos de exclamação nos meus planos». João Salaviza não enxameou o filme de efeitos e peripécias. Não o carregou de diálogos de encher o ar entre as personagens. Tudo segue uma linha de planície sem dunas. E, no entanto, há algo na história que progride numa ascensão em espiral, sem passarmos por grandes sobressaltos climáticos, nem twists na acção. O realizador não queria que houvesse elipses, ou solavancos no tempo e no espaço. Queria atingir uma espécie de contiguidade espacial e temporal – o que só acentua a sensação de sufoco, de cerco, de claustrofobia.
A ideia era captar um momento, apenas, na vida de Mauro, um jovem em prisão domiciliária, com um pulseira electrónica no tornozelo, que faz umas tatuagens. Dentro da sua casa. Dentro do tal bairro guettizado. Dentro da arena. Dentro de um condomínio duplamente fechado.
A cada versão do guião, João ia expurgando, podando, simplificando, mais e mais, até ficar com a narrativa no osso. Até atingir aquele traço minimalista dos filmes do neorealismo, como em Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica: «Um homem precisa de uma bicicleta para trabalhar mas a bicicleta é-lhe roubada».
Não quis enfatizar a mensagem social do filme. Quanto à função política do cinema, prefere citar Manoel de Oliveira (foi assistente do montador em Singularidades de Uma Rapariga Loura), que diz que quem deve mudar o mundo são os políticos e os cientistas. «O meu filme não existe para representar uma causa, nem um bairro. Espero que ninguém se sinta representado. O filme apenas representa o meu ponto de vista, é tudo».
Seja como for, acredita que o cinema tem de ser «uma reacção a qualquer coisa», «um desconforto». E lembra que os irmãos Dardenne, uma das suas referências cinematográficas maiores, dizem que uma obra de arte deve ter sempre por base a pergunta «insurge-se contra o quê?».
Se alguma vez o realizador se entretivesse a fazer psicanálise dos seus próprios filmes, escreveria um livro sobre aquilo que não queria que eles fossem. E o primeiro item seria «moralistas»: «É difícil não se ser moralista. É difícil conseguir anular esse defeito intrínseco que todos nós carregamos». Segundo mandamento: «Não queria que o meu filme se parecesse com um filme».

Jaula dentro da jaula
Arena é uma história de silêncios, ruídos, ecos, muros, paredes, nada, coisa nenhuma... Na verdade, nem temos a certeza de lhe podermos chamar história, sem que isso lhe retire algo da leveza que nos dá uma tão fluente passagem até ele. Há esse rapaz que está preso «lá fora». Mas o «lá fora» dele está cheio de grades nas janelas – como nas prisões. Há imensos muros e betão – como nas prisões. Há pátios interiores, habitados de ecos e vozes. Há passadiços, tatuagens, rixas e escaramuças entre grupos. Só não há guardas? Afinal, neste «bairro-arena», ou neste «bairro-prisão», até a autoridade comparece, através da pulseira electrónica, como uma grilheta do século XXI.
João Salaviza capta a violência, as agressões entre habitantes do bairro, da mesma forma que filma o resto: «Com distância e tempo». O oposto daquilo que se costuma fazer nas cenas climáticas. Afasta-se do óbvio e do grande plano, pura e simplesmente, distanciando-se, em olhares frontais, com ângulo de 90 graus. Assistimos a um espancamento ao longe, como da tal bancada observacional, do espectador distante. E isso sublinha a «indiferença perante a violência». Foi filmado no Bairro da Belavista, em Lisboa, mas podia tê-lo sido num qualquer desses subúrbios periféricos e despigmentados, em Paris ou Madrid. As câmaras captam por acaso, uma velhinha que assiste a uma cena de pancadaria entre os actores. A cena era simulada, ela não o sabia, mas encara a situação com a impassibilidade do quotidiano. «Eu não reterei com a câmara o que não é reiterado pelas pessoas».
Outra coisa que contribui para a carga naturalista do filme é o facto do próprio casting dos miúdos ter sido constituído entre moradores de bairros do género. Um pequeno luxo para uma curta metragem: dois meses de pré-produção. Não foram os miúdos que se moldaram ao guião, foram os diálogos que se ajustaram às suas próprias expressões e modos de falar. «Os diálogos escritos por mim eram francamente piores, muito mais desinteressantes». Carlotto é o único profissional, que vem do teatro e já entrara em Odete, de João Pedro Rodrigues, «mas o maior elogio que pode receber é pensarem que ele também não é actor».
Filho do realizador e montador Edgar Feldman (que ganhou o prémio de Melhor Curta-Metragem portuguesa no último DocLisboa, com O Segredo), João está mais do que familiarizado com câmaras e montagens. Ser assistente de montagem no último filme de Oliveira, fê-lo «aprender imenso»: «Foi uma lição tremenda. Percebi que em todas as suas opções existe uma intencionalidade. É isso que é fundamental no trabalho de um realizador, ter critérios». Também deu uma ajuda meramente técnica a uns amigos, na montagem de uns spots partidários, e ficou surpreendido com a facilidade com que uns faits-divers irrelevantes se propagam de jornal para jornal.
Durante um ano, em 2006, estudou cinema na Argentina, através de um programa de intercâmbio. Testemunhou o entusiasmo com que os argentinos acolhem uma nova geração de cineastas, um fenómeno semelhante ao que acontece no cinema romeno, que «se aproximou da realidade concreta das coisas, e da contemporaneidade». Agora, olha para o tempo de faculdade, e lamenta retrospectivamente o quão afastado andam os portugueses do seu próprio cinema.

Em Arena, João «armou-se em Vicent Gallo», fez tudo, do argumento à realização e à montagem. Mas foi demasiado duro, andar obcecado com pormenores técnicos, como o som - os sons do bairro ganham, no filme, uma dimensão de personagem colectiva omnipresente. «Um realizador é sobretudo alguém que toma decisões, ao fim de um dia de rodagens foi tudo o que ele fez: tomou centenas de decisões». Mas o importante, já se apercebeu, é conseguir aquilo a que todos os artistas grandes almejam: voz própria. Acredita que o que cativou o júri de Cannes e do Indie foi o «sentido do ponto de vista»; «um olhar específico sobre uma realidade complexa». Mas a curta laureada tem algo de muito português: «Tentei filmar o que acontece quando nada muda». Que é, de facto, o que mais nos tem acontecido por cá: nada mudar... Até que de repente, nos cai um Nobel e um palma de ouro do céu. Para nos fazer acreditar que, afinal, nem tudo está perdido.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Palma de Ouro de Cannes para João Salaviza

Arena, de João Salaviza





Depois de ter vencido o prémio para a melhor curta-metragem portuguesa, no Indie Lisboa, Arena, de João Salaviza, foi distinguido com a Palma de Ouro do Festival de Cannes – um feito extraordinário para o cinema português. Mérito inquestionável, ainda para mais sabendo que se trata de um realizador estreante, com apenas 25 anos.

Arena é um daqueles filmes que consegue atingir uma dimensão local e universal. A história, de um jovem em prisão domiciliária, com pulseira electrónica, é um retrato localizado do ambiente de um bairro dos subúrbios de Lisboa (adivinha-se a zona de Sacavém). Mas, ao mesmo tempo, facilmente se transpõe para um qualquer outro subúrbio de uma metrópole europeia. Aliás, cinematograficamente, encontram-se parentescos com histórias dos arredores de Paris ou Marselha (por exemplo, O Ódio, de Mathieu Kassovitz). E os subúbios de Paris parecem-se mais com os subúrbios de Lisboa do que com Paris. Tal como Lisboa cidade se parece mais com Paris do que com Sacavém.


Trata-se de uma história simples e bem contada: na verdade, nem sequer há uma grande preocupação em contá-la – os elementos narrativos servem mais para a ilustração, para o retrato de uma personagem, de um bairro, dessa juventude suburbana típica do mundo ocidental.


Em Arena, destaca-se também um cuidado estético aprimorado, com uma câmara através da qual o realizador mostra o seu olhar. E mostra-se realizador. Uma pequena grande obra. Agora, depois deste prémio, exige-se que o filme entre, urgentemente, no circuito comercial.