terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sai pra Rua


Encontro Imediático com Rui Simões



É autor de duas obras emblemáticas do pós-25 de Abril, de um cinema Militante. Deus Pátria Autoridade, numa severa crítica ao regime salazarista, e Bom Povo Português, um documentário sobre a revolução de 1974. Desde aí, Rui Simões tem mantido uma presença discreta, realizando inúmeros vídeos dedicados a várias artes, destacando-se um longo trabalho com a coreógrafa Olga Roriz. Com Ruas da Amargura, Rui Simões está de volta, com um olhar muito próprio sobre as franjas esquecidas da sociedade, apelando de forma convicta mas subentendida a um mundo mais justo, numa busca de personagens, nas ruas de Lisboa, da Praça da Alegria ao Jardim Constantino. Ruas da Amargura passou no Doclisboa em 2008. Chega agora às salas de cinema.

Têm sido feitos vários trabalhos sobre os sem-abrigo. Não teve receio que o filme se tornasse redundante?

Ando a fazer este filme há sete, oito anos, sem conseguir financiamento. Fiz uma primeira pesquisa, com material que nem chegou a entrar. Entretanto, nos últimos dois anos têm aparecido muitas coisas do género na televisão, ligadas ao Ano Mundial Contra a Pobreza. Mas também não me preocupou, porque o que me mostravam não era aquilo que eu queria. Há mil maneiras de contar uma história de amor. Eu estava mais interessado em encontrar personagens.

O seu filme está cheio de personagens magníficas. Partiu deliberadamente em busca delas?

Sim. Antes de mais fomos à procura da realidade que estava nas ruas. Pesquisámos durante bastante tempo. Saímos com as organizações de solidariedade social, nas carrinhas, para estarmos próximos e ver o que se passava, mesmo sem filmar. Fomos conhecendo as pessoas que estavam na rua: um processo demorado até seleccionar as personagens que queríamos acompanhar, as mais úteis para a construção do filme. Chegámos a este grupo: três voluntários e seis pessoas ligadas à rua. Foram aquelas que pela sua diversidade de experiências se tornaram mais representativas. Depois a programação foi complicada, porque eles nem sempre estão nos mesmos sítios e não se pode combinar nada com eles. Não há uma produção de horários a cumprir.


Foi simples convencê-los a participar?

Sim, apresentámos o projecto e alinharam, porque fomos estabelecendo relações de confiança com as pessoas.


Apenas quis mostrar o que se passa ou têm alguma intenção superior?

Não sei. O filme é um conjunto de elementos que poderão deixar marcas nos espectadores. E a sociedade é que vai decidir por si própria. Não posso estar a apontar caminhos, mas quero articular um discurso que permita tocar as pessoas e provocar uma reflexão sobre o tema. Custa-me aceitar que uma sociedade que vai a Marte não tenha imaginação para resolver este tipo de problemas. Embora haja muitas organizações a tratar destes assuntos, parece que não há nada. E, na actual conjuntura de crise económica, torna-se muito fácil cair na rua. Devia-se fazer mais. Se o filme puder alertar para isso já não é mau.


Paira sempre a dúvida se cair na rua é uma inevitabilidade ou uma opção...

É uma opção depois da derrota. A partir do momento em que a pessoa não consegue vir à tona de água, deixa-se afundar. Não são heróis. São opções inevitáveis. Ele não escolhem aquele terreno. Os voluntários sim... Fez questão de mostrar esse outro lado... O que me interessava era o ponto de encontro. As pessoas que se ocupam e se preocupam. Que dão o seu tempo para atenuar essa dor. Há um diálogo muito grande entre os voluntários e quem está na rua.


Já está a preparar um próximo filme?

Sim, chama-se a Ilha da Cova da Moura, que é uma ilha africana às portas de Lisboa. Gostava muito de lhe dar um sentido próprio. Queria trabalhar o tema com mais profundidade, em vez de ser uma simples reportagem, porque aconteceu uma coisa negativa naquele sítio. Estamos na fase de montagem. Deverá estar pronto em 2009.

1 comentário:

Victor Afonso disse...

Boa entrevista. Gosto do trabalho do Rui Simões.