quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O gosto de João Salaviza pt.1

Grande Cena: Soy Cuba, de Mikhail Kalatozo

A apropriação do espaço através de um plano contínuo

Na secção Grande Cena / O Gosto dos Outros, João Salaviza, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, com Arena, faz uma dupla proposta. Uma comparação entre cenas de Soy Cuba, de Mikhail Kalatozo e A Palavra, de Dreyer (que publicaremos amanhã). Nesta secção, convidamos personalidades a escolher e comentar cenas ou sequências de filmes.

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Mikhail Kalatozov filma, após a revolução cubana, um filme encomendado pelo governo de Fidel Castro, e este factor interfere grandemente no resultado final da obra, que deve ser analisada sem que se esqueça que é, antes de mais, um filme de propaganda.
Na sequência analisada, pertencente ao terceiro de quatro segmentos que compõe o filme, assistimos a uma multidão que percorre as ruas de Havana, transportando o corpo de Enrique, o jovem que fora morto durante uma manifestação.

A ideia dramática da cena está sintetizada nas palavras da suposta voz de Cuba, a narração que ouvimos algumas vezes ao longo do filme:

“(…) Duro sera el camino y lo señalaremos con la sangre. Pero al caer un hombre por una causa justa, surgén por miles otros.”

Kalatozov filma assim a ideia de que a morte de um homem é um catalisador da Revolução, e o seu desaparecimento faz com que surjam milhares de outros heróis. De acordo com o sistema político que o filme defende, a sua estrutura narrativa está assente numa construção de personagens individuais que se diluem sempre numa personagem colectiva: o povo cubano. Assim, Kalatozov opta por filmar um funeral atribuindo uma importância meramente simbólica ao defunto, e mostrando os “milhares de homens que surgem com a sua morte”. Esta imensa multidão é, verdadeiramente, o protagonista da cena e por isso a câmara tem a liberdade de se afastar do corpo de Enrique, transformando-o num pequenino ponto branco entre tantos outros.No início do plano analisado, vemos a amiga (ou eventual namorada) de Enrique e um dos seus amigos muito próximos da câmara, acompanhando o corpo. Quando a câmara se começa a movimentar e a subir para o topo de um prédio, opera-se uma mudança emocional na cena: o assunto não é a morte de Enrique nem a tristeza daqueles que lhe são próximos, mas sim uma revolução em marcha que se alastra por toda a cidade.

A câmara assume um objectivo: mostrar-nos com a maior grandeza possível, a contiguidade do espaço, e que em todas as ruas e em todas as casas, a revolução está a acontecer.
Por isso, é como se o tempo congelasse para que a câmara possa deambular e mostrar tudo quanto lhe seja possível, em todos os quadrantes. O resultado é um aparatoso plano-sequência, que trabalha todos os eixos do quadro (horizontal lá em baixo, vertical com uma subida do prédio, e em profundidade através de uma fábrica de charutos, saindo por uma janela e continuando a “voar” ao longo de uma avenida).

Este plano-sequência é motivado, não por uma questão de continuidade temporal (até porque seria possível fazer cortes directos do solo para o topo da fábrica e novamente para a rua sem que isso interferisse no normal decorrer da acção), mas sim por uma questão de continuidade e contiguidade espacial: a câmara apropria-se do espaço, revelando a sua omnisciência, que é ainda reforçada pelo facto de se utilizar (tal como no resto do filme) uma grande angular. E é importante que o espectador perceba que o espaço é contínuo: se o protagonista da cena é o próprio povo cubano, então é fundamental filmar “todos os cubanos”.

Na verdade, quando o plano termina (sobre a multidão que avança numa avenida), sentimos que o travelling aéreo poderia nunca terminar, porque existiria sempre mais alguém, noutra esquina, noutra varanda, noutro terraço. O plano de Kalatozov transmite-nos essa ideia: a de um espaço infinito, num tempo congelado.

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