segunda-feira, 18 de maio de 2009

O gosto de Raul Calado


Grande Cena: A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo (1966) *

Por Raul Calado

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Há muitos anos eu escrevia sobre Cinema em vários jornais. Considerava um dever meu chamar a atenção para qualquer filme que me tivesse impressionado - e que eu pensasse que poderia ajudar as pessoas a perceber um pouco melhor o Mundo em que viviam (no caso Portugal do antigamente).Um desses filmes foi a A Batalha de Argel, 1966, de Gillo Pontecorvo.

Naturalmente que vi o filme em França ( anos depois de ser feito, que tambem por lá esteve "retido" pela Censura...). Evidentemente que não pude publicar a crítica. A Argélia era algo de semelhante às colónias portuguesas, a batalha também, e certos assuntos eram tabú.

Não vou massacrar as pessoas com uma crítica "a sério". Muito poucos terão visto o filme, e será tão difícil agora como há mais de 35 anos...

A primeira coisa que me impressionou na "Batalha da Argélia" foi o facto de ser na Argélia. A ideia que eu fazia de uma guerra de guerrilha incluia montanhas, florestas, esconderijos. E eu, que nunca fui lá, pensava que a Argélia era um país semi desertico, quase sem floresta, um mar de areia. Um sítio em que uma avioneta chegava para localizar guerrilheiros numa área gigantesca. O último sítio para fazer semelhante tipo de luta. Foi por isso curioso verificar que a batalha se tinha passado DENTRO das cidades.

Este era um problema que NUNCA se tinha posto a quantos em Portugal sonhavam com uma luta pelo fim da Ditadura. Pensava-se que o nosso destino era imutável - não tinhamos condições "geográficas" para uma luta de libertação nacional. Só depois percebi que o que não tinhamos era coragem para a fazer... Mas fazer uma guerra urbana, aprendi com o filme, é duríssimo, cruel, violento. Mais ou menos o contrário de romântico.

Quero apenas recordar uma sequência do filme.

Na cidade de Argel, a luta começou. As primeiras escaramuças são simples. Por uma rua seguem dois homens em sentidos contrários. Um argelino e um europeu. Quando vão cruzar-se o argelino pede lume para o cigarro. O europeu mete a mão na algibeira, baixa os olhos, e é instantâneamente esfaqueado. É a guerra.

É claro que as autoridades reagem. A cidade é dividida por sectores - europeus por um lado, argelinos pelo outro. Barragens cientificamente colocadas, revistam e identificam todos os não europeus. Corte.

Num quarto uma rapariga argelina, com cabelo "à europeia", vestida "à europeia", ultima os preparativos para sair para o trabalho. É bonita, jóvem de pele clara. Sai de casa levando uma malinha de mão. Desce a rua e chega à barragem e passa facilmente.Saúda os militares, ouve uns galanteios e segue sem problemas. Vai caminhando até ao centro e entra num café moderno com muitos militares e muitos europeus. No balcão pede um café e um bolo. Enquanto é servida e enquanto come este pequeno almoço, olha em redor.

A câmara passa a "subjectiva". Passamos a ver o café e os clientes pelos olhos dela. É uma panorâmica lenta de uns 360 graus. E há, entre toda aquela gente, mesas com mamãs e crianças ( breve pausa nas crianças). E oficiais franceses, e colonos, eu sei lá. A rapariga pede a conta. Paga e "esquece-se" da mala. Sai. Logo a seguir alguem vê a mala "esquecida". Dá um grito e gera-se reboliço.

Já na rua a rapariga nem pára. Há uma grande explosão, destroços por toda a parte. Mortos, feridos e vidros partidos. Perde-se a jóvem na multidão. A cara está molhada com lágrimas. Corte.


*O Gosto dos Outros é uma secção com textos da autoria de personalidades exteriores à equipa do Final Cut. Em Grande Cena recorda-se uma cena ou sequência marcante de um filme.

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