quinta-feira, 7 de maio de 2009

Jogo de Espelhos


Entrevista com Sérgio Tréfaut, director do DOC_EUROPA

Como foi feita a selecção dos filmes?
Além de escolhermos um filme para cada país da União Europeia, estabelecemos alguns critérios. Privilegiámos curtas e medias metragens, por que só tínhamos 10 sessões para 27 países. Seleccionámos filmes produzidos no século XXI. Também considerámos que o filme de cada país deveria decorrer naquele país - o que exclui grande parte da produção holandesa, francesa, inglesa, alemã, que retratam realidades externas ao seu país de origem. Excluímos naturalmente biografias e retratos de artistas. Privilegiamos finalmente uma certa diversidade, tanto temática como estilística. Os principais temas da realidade europeia estão presentes, mas nenhum deles tem regime de exclusividade: imigração, envelhecimento, direitos políticos e civis, lazer, transformação dos centros urbanos, alteração do regime de trabalho, abandono dos campos, lazer, famílias, etc.

Julga que as obras seleccionadas espelham mais uma “união europeia” ou uma “diversidade europeia”?
A Europa ainda não é, felizmente, um todo uniforme. Toda a programação foi concebida como um jogo de espelhos para que em cada filme possamos tentar descobrir semelhanças e diferenças. Há realidades transnacionais, que não se cingem a fronteiras. O desaparecimento do comercio local de Viena é muito semelhante ao que conhecemos em Lisboa. A realidade do campo búlgaro é parecida com a portuguesa. A imigração é uma realidade comum a todos os países, mas com perspectivas e ângulos diferentes.

O que o filme português seleccionado, Documento Boxe, de Miguel Clara Vasconcelos, diz a um público estrangeiro sobre a realidade portuguesa?
Não escolhemos nenhum filme desta selecção enquanto retrato oficial do país. Há sempre uma infinidade de formas de abordar a realidade de cada país através do documentário. Mas é verdade que a escolha do desporto (mais o futebol do que o boxe!) enquanto forma privilegiada de esquecer a realidade é bem característica da sociedade portuguesa. Além disso, o Documento Boxe retrata um meio pequeno, na fronteira da sobrevivência, com alguma corrupção e um nível baixo de instrução que, entre outras coisas, caracterizam Portugal.

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