sexta-feira, 8 de maio de 2009

Vidas entre socos

Entrevista com Miguel Clara Vasconcelos, realizador de Documento: Boxe, o filme que representa Portugal no DOC_Europa. Passa domingo, às 21.30, no CCB. Entrada gratuita



Foto de Luís Barra




Em Documeto: Boxe, o realizador Miguel Clara Vasconcelos imiscui-se no submundo do pugilismo em Portugal para revelar as mais intrigantes personagens de carne e osso retratadas entre socos.


Porquê o boxe?
O boxe é um tema clássico do Cinema. Contudo, não procurei a modalidade, mas as pessoas. Pessoas que fossem, ao mesmo tempo, violentas e pacíficas, brutais e civilizadas. Aos poucos, fui-me interessando cada vez mais pelo universo do pugilismo em Portugal.

Abriram-lhe as portas? Foram receptivos a mostrarem o seu pequeno mundo, mesmo os negócios mais obscuros?
O primeiro contacto foi na Praça Paiva Couceiro, em Lisboa, durante uma Gala de Boxe com atletas amadores e profissionais, onde vi lutar pela primeira vez o Jorge Pina. Aí conheci o senhor Casteli e grande parte dos responsáveis da modalidade. Depois, entre desconfianças e explicações, foram-nos deixando filmar. A atenção que lhes prestávamos e uma certa vaidade ajudaram ao trabalho.

Retrata personagens fascinantes, mais interessantes do que as de muitos fimes de ficção. Houve uma pré-selecção das figuras mais fortes e caricatas?
Gosto muito de escutar as pessoas a falar. Sou um bom ouvido. Passámos muitas horas com atletas, treinadores, promotores, árbitros e familiares. Assistimos aos treinos, a competições, estivemos nos balneários antes e depois dos combates, viajámos, comemos com eles e fomos filmando. Durante esse processo, descobrimos pessoas mais eloquentes que outras. Essas despertaram o nosso interesse e a nossa simpatia também. A verdadeira selecção foi feita na montagem, em que tivemos de nos restringir ao argumento que entretanto foi surgindo. Há muito material, muitas conversas e situações interessantes que tivemos de excluir para não quebrar a narrativa.

Qual foi a reacção dos protagonistas ao assistirem ao filme?
Convidámos os participantes a assistirem ao filme, antes de o exibir-mos a um público mais alargado. A Videoteca Municipal de Lisboa ofereceu as suas instalações. Estávamos um pouco apreensivos. 'Esperemos que não haja porrada', pensei. No final começou o de-bate e percebi que gostaram de se ver. Na realidade, não falavam do documentário, mas de boxe. O filme tornou-se numa janela para as suas próprias vidas e isso agradou-me. Casteli falava dos problemas do boxe amador e o Pina do último combate em Espanha.

Revela um submundo desconhecido por muitos. Porque motivos o boxe em Portugal se fechou num gueto à margem da sociedade?
Talvez não seja a pessoa mais indicada para responder, mas pelo que pude observar, o boxe foi perdendo popularidade à medida que surgiram as artes marciais. Mas não é só uma questão de competitividade. Julgo que a Federação de Boxe é pouco dinâmica e ouvimos queixas quanto à distribuição dos apoios públicos. O Boxe é um bom reflexo desse Portugal abandonado que escapa ao controlo institucional e que, apesar de ter pessoas muito válidas, precisa de renovar-se. No entanto, o boxe tem um papel fundamental junto dos bairros mais degra-dados, sendo muitas vezes uma alterna-tiva à dependência de drogas e álcool. Nalgumas prisões faz parte dos pro-gramas de combate à toxicodependência e descobri que serve também como treino para porteiros de discoteca, mas isso seria outro documentário...

Gosta de boxe?
Gosto das pessoas que praticam boxe. Houve combates que apreciei pela diferença de estilos dos pugilistas. Há no pugilismo uma espécie de coreografia da violência. Antes de trabalhar neste documentário nunca tinha assistido a um combate ao vivo. Não me tornei num adepto incondicional, mas qualquer dia vou a Santa Apolónia ver como andam as coisas.
Nota: A entrevista foi feita em 2006, em Vila do Conde, para o JL. Na altura o filme ganhou o prémio nacional do festival.

Sem comentários: