quinta-feira, 21 de maio de 2009

João Bénard da Costa (1935-2009): homenagem em cinco filmes


Morreu, hoje, dia 21, João Bénard da Costa. Nascido, em Lisboa, em 1935, foi director da Cinemateca Portuguesa durante quase 20 anos e um dos mais importantes teóricos e divulgadores de cinema da nossa história. O cinema em Portugal ficou mais pobre. O Johnny Guitar, de Nicolas Ray, filme revia vezes sem conta, ficou imensamente mais nostálgico.
A João Bénard da Costa, que programou tantos ciclos, o Final Cut dedica-lhe um Ciclone com cinco obras que sabemos que adoraria rever :

Johnny Guitar, de Nicolas Ray



O ciclo poderia começar e terminar aqui. Bénard não tinha dúvidas em dizer: «Este é o filme da minha vida». Viu-o vezes sem conta. Incluiu-o nos mais diversos programas. E sempre que o exibia na Cinemateca, não resistia e entrava pelo menos para ver as suas cenas preferidas. «Descubro sempre qualquer de novo», afirmava.

O Vale era Verde, de John Ford



«Não há filme que me faça mais saudades», dizia numa das suas crónicas. E é verdadeiramente notável esta grande obra de John Ford, com uma tremenda carga nostálgica. Bénard da Costa não considerava que este fosse o melhor filme do realizador, contudo, como cinéfilo que se apaixona, admitia que não lhe conseguia resistir.

A Palavra, de Carl Dreyer




João Bénard da Costa era um homem de fé, ligado a movimentos católicos de esquerda, e escrevia abundantemente sobre religião. Assim, um filme tão poderoso como a palavra – uma das maiores obras de arte deste século, como lhe chamou – só poderia deslumbrá-lo. Numa crónica disse: «As montanhas nunca se moveram, como os mortos nunca ressuscitaram. A única vez que vi isso acontecer foi neste filme. Se me disserem que é cinema, eu respondo que não é não»

Francisca, de Manoel de Oliveira

Bénard considerava que se alguma vez ficasse na História era através das suas participações, como actor, nos filme de Manoel de Oliveira. Ainda recentemente teve o seu papel, contracenando com Michel Piccoli, em Encontro Único, a curta que Oliveira fez para Cannes (ainda em exibição). Mas, da extensa obra do decano dos realizadores mundiais, Bénard elegia Francisca: «Às vezes me poergunto se sonhei este filme ou se este filme me sonhou a mim»


Persona, de Ingmar Bergman




Também João Bénard da Costa se deixou deslumbrar pela estética, intencionalidade e teatralidade da cinematografia de Bergman, considerando-o um dos maiores génios do cinema europeu (de resto, é um parecer quase universal). Persona terá sido o filme que mais o impressionou. Sobre ele escreveu: «Sinto-me diante de Persona como o miúdo que por lá aparece a tocar na tela e sem a transpor. Para lá daquele filme estará possivelmente o sentido de tudo, mas não se pode ir para lá de um filme, como não se pode passar para lá de uma tela sem destruir a visão».

3 comentários:

célia cruz disse...

Foi a melhor das homenagens. Fantástico... Obrigada!
Célia Cruz

Victor Afonso disse...

Morreu o Sr. Cinema.
Nesse leque de filmes, só falta o "Johnny Guitar" de Nicholas Ray.

Victor Afonso disse...

Ups, peço desculpa, só agora vi com mais atenção que o filme de Ray está citado!